terça-feira, 28 de dezembro de 2010

quadro de honra #3

por motivos de copyright, prefiro deixar links para o youtube em alguns dos casos. em havendo interesse, podem sempre pedir-me os mp3's de alguma das malhas. still, google is your friend :

shanell ft. mika means & jovi rockwell - la la la / teairra mari ft. mavado - coins

ainda não me decidi sobre qual destas duas versões gosto mais. o instrumental recupera aquele tom ameaçador que tem vindo a rarear no dancehall pós-choradeira (e refém do auto-tune) de um modo que não permite refrear os ânimos de modo brando. tem os dentes cerrados de tal maneira, que apenas uma voz feminina lhe poderia conceder o espaço necessário para não sucumbir à auto-fagia. o que poderia ter sido o caso de rated r, não estivesse tão dependente da catarse. e da maturidade forçada que isso acarreta?

a versão da shatell (à qual nunca prestei grande atenção, apesar de alguns momentos de valor em shut up n listen) prende-se mais na sua aura jamaicana, com o la la la subliminar a aparecer de um modo mais insistente no subconsciente para se converter no próprio (proto?) refrão. é um fluxo, onde as prestações mcing não ofendem sem serem completamente relevantes e acaba por desembocar sempre em "i'm gonna make you love me like that". a ameaça toma forma lírica. e apesar de imperar um certo conservadorismo acabo por a aceitar de bom grado enquanto statement hipnótico de uma malha indecisa quanto a revelar-se uma canção de pleno direito.

'coins' é uma anomalia que espelha o próprio perfil discreto da teairra mari. numa altura em que parece que at that point nunca irá ver a luz do dia, ficou confinada ao leak rasteiro ('automatic' com a nicki minaj também teria merecido melhor sorte). compreensível, não só pelas razões que já anteriormente tinha mencionado (embora pudesse ter feito parte de sincerely yours), mas também por ser difícil encontrar-lhe grande potencial comercial. desta feita, são as buzinas a enfatizar toda a tensão de um objecto que acaba por habitar o crossover entre o dancehall e o r'n'b de um modo que acaba por soar bastante natural. e que deveria ter mais oportunidades. com o mavado a oferecer um contraponto masculino bem vindo, a teairra incute toda uma coolness ao tema sem que isso implique um ambiente mais rarefeito. antes um fio condutor digno para uma canção reveladora das suas capacidades camaleónicas no espaço de três minutos e meio.

florrie - left too late

sem se desviar de uma fórmula que ajudou a criar, 'left too late' recorre ao manancial rico de opções estéticas da casa xenomania para uma solução tão eficaz quanto deslumbrante. dance-pop sem grandes segredos, na senda de mini-viva ou girls aloud (nos momentos menos exuberantes), onde o labor minucioso prestado à arquitectura sónica da canção não desvirtua uma vulnerabilidade palpável. processual, na medida em que encadeia os momentos em crescendo, com recurso a uma ponte que desemboca naquele tipo de refrões larger-than-life que facilmente se vêm a revelar tão exagerados quanto inócuos, mas igualmente sensitiva por nunca pôr em causa o sentimento geral da canção em detrimento de uma construção mais maniqueísta.

soundgirl - i'm the fool

isto é tudo aquilo que a santogold nunca poderá vir a ser e uma das razões (por estar nos antípodas) pelas quais embirro solenemente com a intransigência indie. ou então com aquele discurso muito pós-moderno que invoca a pop e o r'n'b sem um conhecimento de causa. talvez por se mostrar tão distante desse sectarismo, i'm the fool' consegue soar tão fundamental. e sem deixar de ser igualmente espertinha. nada mais me apraz a dizer. está tudo aqui : "this ain't glee / i'm back on the wire / if it was twilight / i'd be a vampire".

pinch - croydon house

nunca nutri grande admiração pelo pinch. underwater dancheall era uma premissa entusiasmante que veio a revelar uma militância dubstep demasiado presente, e acabava por cair no campo da über-seriedade sabotadora. 'croydon house' não se afasta dessa mesma austeridade, mas consegue subsistir nesses mesmos propósitos sem recorrer a uma agenda específica que dependa de tiques urbanos ensimesmados e, em última análise, cansativos. se o reverb inicial, muito echospace, demasiado reason, chega a assustar, rapidamente passa a um plano secundário para dar lugar ao ritmo. é este que faz de 'croydon house' a melhor coisa do pinch desde 'qawwali'. elemento central, dispõe-se em várias camadas que se enredam no acerto harmónico do sub-grave (que acaba por ter o seu protagonismo no meta-crescendo dos últimos dois minutos) sem nunca tomarem a dianteira. um kick 4/4 enfatizado pelos shakers e congas que parece desacelerar com a entrada daquelas palmas tão em voga no grime circa 2004, para um efeito tão óbvio quanto intrigante. o reverb mantém-se, nas profundezas, mas já há muito que foi esquecido na pan-generalidade de um tema que recupera o sentimento de isolamento do melhor loefah sem ser condescendente para com os seus ensinamentos. é aquele cinzentismo que não se alimenta somente da sua tensão lacónica, para meter o corpo a mexer de múltiplas formas. um one of a kind que duvido que se repita proximamente.

rangers - dome city

confesso : a escolha mais inusitada de suburban tours. 'dome city' está longe de ser uma canção ou mesmo um instrumental de pleno direito. assemelha-se mais a um interlúdio, não fosse aparecer quase no final do álbum. mas, apesar de fazer mais sentido perpetuar 'deerfield village' ou mesmo 'out past curfew' (versão nocturna/ameaçadora de uma comprimento de onda empático), 'dome city' é uma miniatura instrumental que acaba por cristalizar todo o sentimento de abandono que prevalece em suburban tours em formas mais ou menos prazenteiras. (partindo para um paralelismo não tão preciso, mas recorrente e eficaz) é um pouco como 'bocuma' consegue ser tão ou mais reveladora do universo dos boards of canada do que os temas per se. 'dome city' é, factualmente, uma redoma. o riff encerrado naquelas duas notas de guitarra (e aquele break circular a fazer todo o sentido) tanto pode ser o olhar dos subúrbios para a cidade na sua intangibilidade, como o oposto. um eterno-retorno, permitindo a extrapolação cinética. não é música de viagem, pois o escape é mental, é música de regresso. como a everyday life vigente.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

quadro de honra #2

mais. alguns transcritos das 'canções de verão' do bodyspace. a recordar.

kingdom ft. shyvone - mind reader (todd edwards mix)

eventualmente, a orientação para um ambiente mais soturno em that mystic acabou por se revelar bem menos perniciosa do que seria expectável, escapando com subtileza às armadilhas post-dubstep e deixando 'fogs' ecoar para a posteridade, mas 'mind reader' continua a elevar-se, quase um ano depois, sobre tudo aquilo que esse ep revelou. no entanto, e apesar de serem indiscutíveis as suas propriedades para a dança aos solavancos, a original sempre me pareceu demasiado impenetrável. um frenesim auto-referencial que se passeava por entre coordenadas jungle/2-step/bassline, com aquele acervo dos sintetizadores trancey (uk circa 94, não os de goa) a gerar um entusiasmo distractivo. por essa mesma razão, sempre a preteri em relação ao classicismo da remix do todd edwards, que, sem necessidade de se revelar a cada momento, consegue sem grandes acrobacias atingir uma elegância sublime de modo quase casual. não deixa de ser curioso que o próprio todd edwards fosse uma referência para a 'mind reader' transposto para um contexto onde a hiper-informação é norma. as técnicas de sampling vocal (cut-up) para efeito hipnótico são disso paradigma. logo, não deixa também de ser natural que seja ele a compreender melhor aquilo que 'mind reader' tinha para oferecer, sem nunca almejar o espanto. antes, a eficiência.

princesa - más fuego

terá sido mais pela alusão inflamável que o jorge manuel lopes terá escrito isto. o que não sendo, de todo, mentira, acaba por ser algo redutor (embora preciso) no que diz respeito a dois projectos distintos no modo como se precipitam para os mesmos objectivos. estes passam, obviamente, pela galvanização da pista (a referência ao fogo é, por todas as suas leituras, o meio mais óbvio no reggaeton). 'gasolina' (ainda hoje o maior êxito do género. e 'impacto' tinha tudo para dar certo) era sexualmente explícita, acabando por militar sub-repticiamente no lado mais acessível do género por via de coros femininos que distraíam da toada ameaçadora, enquanto se cantava em uníssono. 'más fuego' fundamenta-se nessa mesma ameaça constantemente. linhagem quase directa com os riddims do dancehall circa 2005 (dos drive-by shootings) que nunca procura humanizar esse processo. antes criar o distanciamento necessário para que o território da princesa esteja firmemente demarcado. é disso que 'más fuego' trata. de um modo que nenhum outro mitra (venha ele de que género for) conseguiu de modo tão vicioso.

rudimental ft. aadiyam & shantie - midnight affair


constitui, sem grande dúvida, aquele momento na uk funky que melhor evoca o ambiente promíscuo tão propício a noites ébrias. como se depreende facilmente, 'midnight affair' é marcadamente nocturno. é também sobre toda a tensão que o flirt pré-foda acarreta. elevada a níveis de extrema sensualidade por via de um sintetizador dorsal que, enredado em torno dos polirritmos rasteiros, consegue ser uma de elegância tão discreta quanto impositiva. contrariamente à tendência one night stand mais cândida de um clássico como a 'do you mind', 'midnight affair' rejeita qualquer tipo de empatia emocional. é foda nascida pela necessidade de quem não tem nada mais interessante para fazer. a misteriosa melodia da parte central é o caminho necessário até à cama, com a cidade em volta como espectador ausente. uma certa alienação tão em consonância com o hedonismo narcótico. ainda assim, existe vida fora dessas quatro paredes, e 'midnight affair' não deixa de soar estranhamente vouyerística na sua apatia enevoada. o que a torna perfeita para o drive by citadino em câmara lenta.

monica - blackberry

^^ aqui

tensnake - coma cat

sem que se deixe desvanecer aquele aroma a creme hidratante e fake tan de solário da balearic beat nascida em ibiza circa 1982, a reapropriação desse imaginário tem vindo a conhecer caminhos bem mais diversificados do que a mera dança suada da classe média/alta. o celebrado yearbook 1 dos studio poderá ter sido a faceta mais visível das baleares, numa altura em que se falava já de um ibiza revival independente das sofríveis compilações café del mar. eventualmente, toda essa proto-tendência se veio a dissipar, com passagem por pérolas como as remisturas dos aeroplane ou as bizarrias maximais dos mungolian jet set a assegurarem uma descendência discreta. com atributos humildes, 'coma cat' de tensnake agarra a dança pelos cornos (ou pelas ancas). consegue a estabilidade necessária num limbo entre uma saudável seriedade e o apelo cheesy capaz de arrastar, sem grande esforço, tanto o mulherio mais lascivo como o público da smalltown supersound. rejeitando o carácter arty muito pós-moderno, em prol de uma estrutura formal 4/4 tão insinuante quanto alienígena no seu hedonismo. tão simples quanto o facto de ser apenas uma linha de baixo absolutamente infecciosa que carrega todo o tema, para reluzir de modo mais estival que tudo o resto com a entrada do xilofone sintetizado mui caribe. deveria ter sido malha obrigatória em qualquer festa, sem que o “bom gosto” (hipsters de merda. eh) tenha de ser uma imposição. ou seja, a verdadeira silly season.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

quadro de honra #1

tal como o fiz o ano passado, vou deixando aqui malhas que não irão aparecer na minha lista de 10 canções do ano para o bodyspace (sairá lá para o início de janeiro), mas cuja relevância me leva a dedicar-lhes algumas palavras. dado que já tinha falado de algumas delas, e não querendo repetir ideias, deixo link para aquilo que rabisquei na altura (pressupondo que mantenho a opinião, obviamente). pretendo deixá-las em blocos de cinco (sem ordem) a seu ritmo. isto é, conforme o tempo e a paciência permitam.

live - lion's den

não seria, de todo, descabido pensar na alusão bíblica ao "covil dos leões" do livro de daniel. 'lion's den' tem também o poder de calar todos os detractores que acusam a uk funky de ser um género mercantilista para dança pré-foda alimentada a martini e vodka preta (i.e. gajas lascivas meets parolos sofisticados). 'lion's den' é um tema barricado e de rosto fechado, que zomba do fist pumping ao mesmo tempo que consegue soar igualmente avassalador. enquanto aquelas cordas anunciam todo o potencial apocalíptico do tema, a batida entra sem grandes concessões num registo tão inflamável quanto insinuante (na medida em que se permite a um manusear de ancas do mesmo modo que ameaça "partir tudo"), como sustento limite para que uma pianola paire de modo estranhamente gracioso vinda de nenhures. é como se a tensão circular de 'inflation' fosse tudo aquilo que restasse dela, seguindo a lógica de um tema que acaba por encerrar tudo aquilo que é aceitável numa pista de dança amplificado ao ponto de ruptura pré-bovino. isto, com um mc no topo (seguindo uma tendência dancehall tão explosiva, na linha da 'buss it') é banger por definição. sem que tenha essa necessidade.

the fives ft. vanya taylor - it's what you do (hottest by far)

^^ via bodyspace

redlight ft. roses gabor - stupid

^^ aqui

beach house - walk in the park

uma vez que saltei daquela fragilidade faux-estranha do primeiro álbum para teen dream, desconfiei que 'norway' pudesse ser aceitável por uma grandiloquência anómala. entretanto, ainda não sei se devotion já caminhava para esta direcção, mas acabei por aceitar os excessos vocais e as propriedades faustosas de teen dream sem grandes problemas de consciência. dessas primeiras audições, 'walk in the park' foi a única malha que ecoou de algum modo e ainda hoje se mantém como o momento que recordo com algum carinho. é aquele lado de passeio domingueiro que também pode ser vivido de modo igualmente sonolento à frente da tv (10 things i hate about you, all the truth about cats and dogs, por aí...) e que fez com que 'fade into you' (apesar de hoje não a conseguir ouvir) fizesse sentido há uns anos atrás. sem ser particularmente nostálgica, consegue ser, ainda assim, reveladora de um estado de espírito romântico que se desdenha quando visto de um ponto de vista racional, mas cujo sentido habita mesmo nessa capacidade de incutir à apatia um certo lado sonhador ficcionado. foda-se, o disco chama-se teen dream.

guilty simpson - cali hills

mais do que um álbum do guilty simpson, oj simpson é um tag team entre este e o madlib, cujo título se revela enganador nessa medida. sofre dos problemas de um álbum de produtor (depois de donuts, valerá mesmo a pena?) enquanto despacha o rapper numa dúzia de prestações. sendo que este sucumbe frequentemente perante a sua própria petulância, descaracterizado pelos recursos estilísticos do hip hop mais violento, oj simpson não só não disfarçou essas debilidades como foi incapaz de lhe conferir uma voz. apesar da existência de alguns momentos interessantes, 'cali hills' é a peça relevante de um puzzle abjecto. e o único momento de verdadeira simbiose. curiosamente, afasta o guilty simpson do ghetto, numa sentida homenagem ao j dilla, onde reflecte sobre a sua ascensão ao panteão de génio sem encetar pelo desgosto comiserativo de uma vivência cruel, pejado de referências thug. neste caso, o flow sonâmbulo adequa-se a um instrumental sem grandes malabarismos, onde o sampling (denso) serve os propósitos dessa mesma prestação. talvez tenha sido o fantasma do génio de detroit a presidir a tudo isto. talvez.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

compras #2

em adenda ao que acabei de postar, importa referir que esta foi feita com recurso a uma memória que tem vindo a definhar lentamente. não que seja razão para a encarar como "definitiva" (daqui a um ano e por volta desta altura, se tudo correr como o previsto, ainda estarei a descobrir pérolas), mas achei por bem referenciar.

ainda no campo de oferendas de 2010, deixei propositadamente de lado pseudo-edições como freebies do hardhouse banton, bits de ill blu ou a banda sonora do i bring what i love do youssou n'dor. coisas que foram, de longe, mais importantes do que muitas abaixo referenciadas, mas que acabam por cair fora do radar do que uma lista (com o seu mínimo de aprumo formal) possa ser.

encare-se mais como uma tentativa pessoal de organizar mentalmente informação dispersa. umbiguismo (prefiro descarga de consciência) natural de um blog desta natureza. as minhas desculpas, para quem as acatar.

compras

aqui uma lista mais completa do que a que podem ler no bodyspace. além de contar com compilações e ep's, tem também alguns discos que ouvi (ou com a atenção mínima) apenas depois da data de entrega. hoje, isto faz o seu sentido. a ordem é mais ou menos irrelevante.

v/a - ayobaness! sounds of south african house
rangers - suburban tours
neil young - le noise
lady saw - my way
keith fullerton whitman - disingenuity / disingenuousness
lil silva - night skanker
christina carter - coupled
excepter - presidence
t++ - wireless
v/a - shangaan electro : new wave dance music from south africa

jailbreak - the rocker
bee mask - in the balm yard: the nth dream of the thermo-hygrometer
jazmine sullivan - love me back
jim o' rourke - all kinds of people ~ love burt bacharach
tyler, the creator - bastard
odd future - radical
funkystepz - sound of malibu
excepter - maze of death
v/a - i love uk funky
teairra mari - point of no return

florrie - introduction
prins thomas - s/t
julian lynch - mare
james ferraro - on air
james ferraro - feed me
princesa - más fuego
kingdom - that mystic
ciara - basic instinct
hype williams - untitled
gucci mane - jewelry selection

fantasia - take me back
swanox - dawnrunner
diddy dirty money - last train to paris
altered natives - tenement yard : volume 1
dispirit - rehersal at oboroten
bee mask - canzione dal laboratorio del silenzio cosmico
ariel pink's haunted grafitti - before today
sightings - city of straw
chrisette michelle - let freedom reign
the body - all the waters of the earth shall turn to blood

murmüure - s/t
curren$y - pilot talk
deathspell omega - paracletus
beach house - teen dream
keith fullerton whitman - generator
akitsa - au crépuscule de l'espérance
clair cassis - s/t
roska - rinse presents: roska
oneohtrix point never - returnal
wacka flocka flame - flockaveli

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

contas

sem grandes atrasos, os top's do bodyspace já estão disponíveis. não podendo, com perfeita justiça, afirmar que tenha tido um peso relevante nas escolhas finais*, houve ainda assim espaço para me revelar um pouco nos discos de keith fullerton whitman, jim o' rourke e oneohtrix point never. ainda assim, existem várias razões para uma visita. creio.

*não foram permitidas compilações e ep's. e discos como basic instinct da ciara, last train to paris de dirty money ou le noise do neil young só foram ouvidos tardiamente.

no geral, é forçoso reconhecer que 2010 foi um ano parco em álbuns marcantes. conto deixar algumas observações mais ou menos fugazes ao longo destes últimos dias do mês. canções lá para o início de janeiro. aqui sim, espaço para entusiasmo.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

prelúdio para contas

2011 vai findando com uma chuva incómoda e os inevitáveis balanços começam a aparecer um pouco por todo o lado. também eu me me tenho vindo a dedicar (com aquela displicência necessária) a tais "tarefas" mais ou menos auto-referenciais. certamente haverá espaço para algumas observações brandas e/ou casuais por aqui, mas antes disso o bodyspace tratará de revelar algumas das minhas escolhas. aqui ,deixarei a totalidade do agora (já com compilações e ep's), do qual faz parte este assomo de brilhantismo do keith fullerton whitman.

para breve. e a pensar em canções.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

marcha nielsen



uma voz que me trouxe as primeiras gargalhadas pós-infância. apesar dos inícios mais "sérios" e da sci-fi low cost, foi a partir do momento que se passou a ser o actor fetiche dos ZAZ que se veio a tornar naquilo que qualquer gajo nascido nos anos 80 viria a reconhecer. dr. rumack e frank drebin confundem-se com o próprio nielsen e viriam a ser o template de uma carreira irregular pautada por cameos em filmes que não lhe faziam justiça. a memória trata de os apagar e perpetuar momentos tão clássicos como este. à falta de palavras relembra-se a voz envolta em nostalgia.



sexta-feira, 26 de novembro de 2010

doces

tendencialmente sou pouco adepto de indecisões britânicas entre a pop larger than life e meta-esperteza indie pós-anniemal. recentemente, apareceram dois casos que me fazem repensar esse mesmo cepticismo. 'i'm the fool' das soundgirl consegue fazer da intransigência de alguém como a santogold algo apelativo, sem incorrer no grrrl power insípido ou exuberante. não tendo nada particularmente original, ganha pontos pelo modo como consegue de um modo quase casual ser tão referencial quanto memorável sem forçar classe. o vídeo epitomiza essa mesma ideia com recurso a uma elegância naive onde todos os clichés têm o seu lugar. e uma linha como "this ain't glee, i'm back on the wire / if this was twilight, i'd be a vampire" merece ser reverenciada. ou seja, street smart. por três meninas que não necessitam de simular vivências no ghetto.

o caso da florrie é o paradigma dessa coabitação saudável. recolhe para si todas as coordenadas que interessam: membro da casa xenomania, colaborações com o enorme fred falke e a opção de disponibilizar gratuitamente a sua música em mp3 ao mesmo tempo que edita introduction em edição limitada/assinada em vinil. directa ou indirectamente existe um posicionamento estratégico notável que, a haver justiça, fará da artista de 21 anos um nome de confiança. e me impede de entrar pela prosa especulativa ou analítica.

terreno fértil.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

futuros

portanto, a ameriie (!) abandona aquela casualidade r'n'b fértil em ganchos flexíveis que lhe assentava com uma naturalidade desarmante, para adoptar uma produção entre a eurodance e alguma synth-pop mais eufórica de tiques asiáticos. com isso procede também a uma ligeira alteração de pendor exótico no nome, como que a anunciar uma nova direcção para cymatika vol. 1. é certo que nunca se lhe reconheceram grandes capacidades camaleónicas, pautando-se por uma rigidez sonora que de all i have a in love and war poderia ser interpretada como conservadorismo, mas esta via soa terrivelmente desajustada. se 'heard 'em all' investiu numa agressividade inusitada, mas mantinha traços de identidade suficientes para ser reconhecido, 'outside your body' descaractriza-se ao ponto de eu simpatizar com a homenagem simplista às suas raízes coreanas no refrão. quase nada.

o provável título do álbum (a sair em 2011) é assustador por infligir uma imagem andróide para quem sempre se mostrou como aquela girl next door inatingível do género.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

post-apartheid

duas marcas distintas da vitalidade da música de pendor dançável vindo do soweto sul-africano. a primeira como que a perpetuar uma cultura ancestral por via do frenesim da electrónica roufenha. a segunda a oferecer uma possível definição daquilo que se pode encontrar sobre o sofrível termo global bass (quando é de house que se está a falar). indispensáveis,* sem que seja preciso incorrer no exotismo brute-force.

*ayobaness! será, muito provavelmente, o melhor disco que ouvi de 2010.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

fusco

vídeo brilhante no modo como torna a everyday life nocturna em algo absolutamente assustador com recursos tão escassos e sem enveredar por uma lógica onde a tensão pressuponha um qualquer climax imagético. a (aparente?) normalidade a encerrar o maior dos medos. pela proximidade. em empatia com uma arquitectura sónica que se sustenta na sua volatilidade intrigante e deslocada de um premissa estanque. desfiguração da realidade em andamentos difusos aos quais a voz narcótica do trim concede o fluxo necessário para a gestalt fazer sentido. de certo modo, não surpreende que ande em digressão com salem. como contraponto real, este é o horror que interessa.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

sucesso

a antecipar a reedição de dagger paths pela, recentemente descoberta no pain in pop, rabisquei algumas ideias sobre 'rattling cage'. aproveitando esta miniatura para deixar aqui o plano de operações da olde english spelling bee para o mês de novembro. o enredo adensa-se. o desenlace é previsivelmente belo*.

*apesar de não ter gostado tanto de foxy baby como inconscientemente esperava, e de não ter dado o devido reconhecimento (i.e. tempo) ao tag team de feed me / on air. nada que esmoreça o entusiasmo em torno da editora.

ainda no campo da exploração prazenteira, a semana passada houve espaço para a escrita semi-automática sobre living with yourself.

montes + 1

ainda na senda da enxurrada wiley, três malhas acabam por sintetizar de um modo tão sucinto quanto desnecessário as tendências que o próprio tem vindo a criar sem que necessariamente seja ele o protagonista. apenas 'blue bottle kiwi' se lhe deve na totalidade e não é mais do que uma revisão da batida matriz do grime circa 2007 envolta no cinzentismo dissimulado dos sintetizadores e no néon de return of the big money sound. 'terms of agreement' do scorcher é de uma indecisão atroz entre a euforia da pista de dança e o massacrar pós-industrial, ainda a recolher os destroços desajustados da 'pon di floor'* e incapaz de atingir o entusiasmo a que se propõe. 'now or never' surge num contínuo subjugado das recentes colaborações de roll deep com a jodie connor (o propósito de 'good times' parece ter sido apenas a revisão brilhante por ill blu), numa tendência pop tão descaracterizada e banal que nem a pretensa delicadeza se consegue impor.

tudo isto como que a refrear os ânimos que a minha anterior referência pudesse transparecer de modo erróneo. dificilmente winner stays on teria algum valor. ainda assim, prevaleceu a curiosidade** e ouvido hoje uma vez diagonalmente, deixou de existir o meu disco rígido como se nem tivesse passado por ele. o regresso a street anthems será a escolha acertada.

*infelizmente, parece ter sido uma via a seguir em demasia ao qual nenhum género tem escapado. não é, apesar da princess nyah lhe ter conferido alguma credibilidade.

**mesmo derivada do sucesso comercial, explicável mas pouco entusiasmante, de 'good times' e 'green light' na versão original, não seria cínica o suficiente para o descartar sem qualquer hipótese. deveu-se ainda assim a uma questão de timing.

ou seja, tudo na mesma.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

cheques

Apparently (so sez dissensus) Funkystepz will be releasing "Fuller" b/w "Hurricane Riddim" on Hyperdub. Unbeatable combo IMO.

^^tim finney no ilm. concordo. para não deixar este post tão cheio de nada :

descoberta recente de um produtor um tanto ou quanto invisível. apesar de alguns momentos irrelevantes, existem algumas razões para lhe prestar alguma atenção ('safe', 'sugar rush' ou 'complicated'). o nome é péssimo, mas isso é apanágio no género (crazy couzins? ugh), e não uma razão viável para a desconfiança.


quarta-feira, 27 de outubro de 2010

montes

numa manobra que não lhe é totalmente inédita, o wiley tem vindo a disponibilizar gratuitamente (via twitter) 180 malhas que vinha a gravar compulsivamente. é óbvio que tal proficuidade reserva sempre muitos dissabores, mas tendo em conta o fluxo de actividade, pode-se até afirmar que o godfather of grime consegue alguns momentos bastante inspirados. depois das sequelas insignificantes de 'wearing my rolex', dos beefs com o trim, do desnorte em torno do "verdadeiro grime" e do ataque aos tops por uma via que esteve destinada ao confronto entre intransigência criativa e crossover bovino, recebem-se com relativa felicidade alguns temas que, sem serem brilhantes ('never be your woman' esteve perto), não ofendem como anteriormente.

da enxurrada, e abraçando apenas de modo tangencial a potencialmente penosa tarefa de separar o trigo do joio, é impossível não aceitar de bom grado algumas feras. 'will your name remain' é uma curiosa peça evocativa, algures entre a tendência sino e 'xtc', com a referência ao eskibeat a funcionar como suporte para esse mesmo acesso de nostalgia, como se dissesse "eu sempre aqui estive", sem reforçar demasiado uma identidade, já de si sobejamente reconhecida. a sequência r'n'g desse mesmo estado é atingida em 'oh la la' com igual aprumo estético, sem desvirtuar um savoir faire que se pretende sincero. depois de uma prestação notável em 'trouble', a shola ama volta a abrilhantar um tema onde a presença do mc é tão automática que chega a ser meramente acessória, sem estorvar. o template insistente que passa de primordial a subliminar com a chegada da cascata de sintetizadores, na tradição das melhores produções grime para candura feminina, deixa a impressão de ter sido coisa para ter levado apenas um par de horas a fazer. mas, quando o know how serve de modo tão fascinante os seus propósitos benignos, nada se lhe pode opor. 'paranoid' segue uma tendência similar em modo sonâmbulo.

se este back-to-basics (se assim se lhe pode chamar) não deixa de ser algo natural, porque revestido de algum valor simbólico (apesar da presença física da shola ama), a associação do wiley ao mj cole já é mais intrigante. mesmo com as piscadelas de olho ao legado do uk garage, não estava à espera de uma ligação directa a 2002 pelo cordão umbilical. o resultado acaba por nem soar ao revisionismo retro que se poderia supor, e apesar da tradição freestyle evocar os dias da rádio, a produção revive esse passado de um modo quase esquelético, reduzida a uma batida rarefeita e apontamentos sonoros rasteiros, um pouco na onda de algumas produções do wookie adaptadas a um contexto grime. eficácia genética?

amor

obviamente que a minha relação de amizade (além de partilha comunicacional/musical em osso) me tornam suspeito para falar sobre a obra do carlos nascimento. no entanto, alienar-me das virtudes de robert foster (pseudónimo sacado ao clássico beneath a steel sky que esconde o seu trabalho pós-ghoak) não faria qualquer sentido factual pela "mera" existência de fortes ligações afectivas. numa altura em que a ressurreição dos sintetizadores de calor analógico tem vindo a colher louvores nem sempre meritórios, a música de robert foster eleva-se para lá da mediania vigente destituída de pathos.

mesmo habitando num plano cartografado, comum a alguns dos nomes mais importantes do agora (stellar om source, oneothrix point never, etc.), explora o seu próprio campo referencial por via da transmutação simbólica das premissas fundadoras da música sintetizada. aglutinando memórias do vangelis de albedo 0.39, john carpenter, kösmiche, inflexões prog da escola rick wakeman ou da grandiloquência do jean michel jarre de deserted place a equinox, para as filtrar num contínuo cronológico tão devedor da pré-idm ambiental dos orb ou future sound of london, como dos estados alterados consequentes dos autechre circa tri repetae++ ou (invariavelmente) das vignettes dos boards of canada. com todo aquele sentido de risco inescapável numa realidade pós-endless summer.

todo este manancial é parcimoniosamente arquitectado em composições semi-improvisadas, minuciosas mas nunca austeras, de uma sensibilidade quase tangível, escapando ao exagero new age ou ao pastiche retórico sem forçar uma saída de recurso. persiste uma melancolia difusa, um sentimento de abandono para coordenadas dispersas. o vazio envolvente de blackmass, onde a dark star do carpenter se transforma numa possível realidade, igualmente intrigante, é caminho natural para a nostalgia futurista de '1985' e (principalmente) de '1970'. a constatação óbvia de que não existe qualquer embuste trendy numa música que só faz sentido assim. deslocada espacial/temporalmente, é especulativa na medida em que habita no cérebro para se dotar de uma significância dependente do conforto referencial do ouvinte. não incute imagem, precede-a.

tudo isto pode ser confirmado AQUI. ignore-se a leitura precedente, e tudo irá fazer sentido. mesmo.


terça-feira, 26 de outubro de 2010

recibos

"The first half of 2011 is already lining up to be really exciting. We've got releases from new artists to the label, Morgan Zarate and Funkystepz are among them, as well as a brace of new music from older artists."

^^mail de outubro da hyperdub.

depois destes dois lançamentos, a contratação de funkystepz para os quadros da hyperdub segue uma lógica bastante adequada para a exposição menos hermética de uma das equipas de produção mais características dentro da uk funky. são também os únicos a investir declaradamente numa toada tropical ('shake it', 'malibu', etc.) que não se restrinja a um one off tentativo (mesmo que possa garantir óptimos resultados, como 'magaluuf ' ou este clássico). a opção mais óbvia seria 'fuller' (como atesta a presença nesta mix do kode 9), pela sua partilha de valores com a identidade da editora, mas quem tem 'hurricane riddim' ou 'crash bandicoot', tem todo um manancial de opções igualmente viáveis.

tendo em conta que esta estreia na hyperdub possa constituir um retrato mais fidedigno temporalmente, as duas malhas inéditas incluídas na mais recente mix para a rinse.fm seriam a escolha mais natural. e fariam igualmente todo o sentido.

catatonia

poder-se-ia culpar a relação conturbada com o chris brown pela catarse exageradamente emo de rated r, mas atendendo às suas palavras, esta sanidade pode-se vir a revelar tão necessária quanto boçal (o que, ainda assim, nunca será tão pernicioso quanto 'russian roulette' ou 'run this town'). em antecipação branda a loud, 'only girl (in the world)' apresenta uma tendência para o egocentrismo celebratório que 'who's that chick' vem confirmar. produzida pelo, cada vez mais omnipresente david guetta, leva ainda mais longe a euforia eurodance do single de avanço para um resultado que, ainda mais do que descaracterizado, torna-se quase caricatural no modo forçoso como celebra o seu bem estar por uma via tão jovial.



quinta-feira, 21 de outubro de 2010

chance

ainda existe. fervilham em lume brando algumas ideias dispersas que pretendo deixar aqui, assim que possível. para breve, creio. em jeito de recompensa (para quem?) deixo aqui o link para más fuego da princesa. reggaeton a cair em cascata sobre tudo aquilo que interessa no género, como já não ouvia desde casa de leones, e apenas disponível para download gratuito. é aproveitar. o single homónimo é aquilo que o jorge manuel lopes tão sucintamente descreveu.

domingo, 3 de outubro de 2010

3/4

hype williams - untitled
teairra mari - sincerely yours ep
the fives ft. vanya taylor - it's what you do (hottest by far)
kingdom - that mystic ep
devine collective - people keep dancing
donaeo - i'm fly
gucci mane - the appeal : georgia's most wanted
breach - fatherless (doc daneeka rmx)
k michelle - what's the 901
fantasia - take me back
screama ft. farah - kiss me there/i can't
slk - hype hype (funkystepz rmx)
bee mask - canzoni dal laboratorio del silenzio cosmico
curren$y - pilot talk
eastwood - right there
ill blu - bits
hardhouse banton - freeness vol. 1
tifa - nah stop shine
ghetto - moonwalk thing
ignatz - mort aux vaches
prince rama - shadow temple

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

identidade

apesar dos clássicos 'sirens' e 'reign' (recentemente alvo de uma remix de dumplin) serem a sua faceta mais visível, seria erróneo categorizar o hardhouse banton como um criador de riddims tendencialmente másculos de características grime. oferecida sem qualquer tipo de aparato, a compilação freebies vol. 1 permite constatar que o espectro vai muito para além dessa faceta. na verdade, aquilo que sobressai na obra dele é uma apetência para a criação de uma dimensão bem mais etérea do que seria previsível. precisa numa construção rítmica textural enquanto suporte para uma tangibilidade rarefeita e delicada na sua tensão alienante. freebies vol. 1 não procura ser, de modo algum, marca de água para as características do produtor, nem tão pouco almeja ser uma mixtape per se. encare-se como uma tentativa incoerente de juntar algumas das inúmeras pontas soltas de um género ainda refém da rádio (nada contra). desequilibrada, cai inevitavelmente em terreno desnecessário. ainda assim é impossível não destacar três malhas em particular:

peça fulcral para a compreensão do seu universo, a remix da 'turn it around' de alena é um daqueles exemplos gloriosos da capacidade cirúrgica da uk funky de transformar algo desinteressante/inócuo/intragável em algo infinitamente mais interessante de seu pleno direito, por via da restituição das suas premissas bases (remixes de ill blu para a 'one more lie' e roll deep), ou desvirtuando o seu elemento unificador até ao abandono ('better off as friends', 'find your love', etc.). neste caso, toda a euforia late 90's eurodance do original desaparece no vazio, para dar lugar a um misterioso exercício de final de noite, de sonambulismo psicotrópico. a batida segue uma lógica "one step forward, two steps back" em sintonia tensa com a melodia descendente. é neste precipício que a voz paira enquanto último resquício de um humanismo que se fragmenta no infinito aquando do refrão. e é mesmo este resultado final que prevalece, quando a memória já tratou de eliminar 'turn it around', e todas as questões (técnicas, ideológicas, etc.) em torno da sua origem deixam de ter qualquer tipo de significado.

duas malhas, até agora, desconhecidas partem de estratégias idênticas para acentuar a delicadeza que 'turn it around' insinua obliquamente. 'chase the earth' é aquilo que esperava que os n-10tainment pudessem vir a fazer depois de 'i pray' (acabaram por seguir uma lógica new age sofrível*). almeja uma mesma dimensão incorpórea (não querendo repetir este termo) sem se desapegar do apelo dançável, para a revestir de uma maior candura. habita um limbo arriscado, com esse lado etéreo em voos rasantes sobre o papel de parede pseudo-metafísico, mas acaba por resultar de um modo que não seria previsível. o reverb habita um pouco por todo o lado sem impor uma densidade sabotadora, com a voz a assumir contornos claramente condutores. talvez seja a minha capacidade de abstracção do seu lado cheesy, mas até aquela guitarrinha tropical me parece uma boa ideia.

'next to me' pode ser vista como o meio termo entre estas duas. num comprimento de onda similar a algo como 'make your move' do seany b, é reflexo do minimalismo melódico do seu autor. a estrutura polirrítmica linear enquanto suporte para uma melodia central ,que se vai repercutindo em camadas, até chegar a um refrão que acentue toda a tensão latente, é uma daquelas fórmulas que aprovo sem grande problemas analíticos. acabando por ser tão funcional quanto intrigante sem querer forçosamente deslumbrar.

*'peruvian high' acabou por me soar bem melhor do que qualquer aproximação a um tribalismo-lounge (?)

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

vias

ainda no rescaldo da rentrée escrevi sobre a mais recente demonstração da night slugs daquilo que é plausível de ser dançado. ou interpretado. deixei também alguns apontamentos sobre o primeiro investimento visual de bom gosto no seio da uk funky. e uma hipótese tangível de crossover.

deixei também o preconceito de lado e decidi-me a ouvir a 'square one', finalmente. bem melhor do que poderia supor vindo de um projecto com o nome de mosca. inevitavelmente, projectava-me para os territórios lamacentos de caspa ou rusko. assumpções infundadas.

'square one' é um peça fragmentada. justaposição cautelosa que nunca evolui numa lógica estrita, antes fazendo da sua própria mutação a razão de ser. nuanceada de modo a não resvalar para um frenesim iconoclasta, mas suficientemente intrigante, deixa habitar o toasting reduzido ao essencial (a palavra), num mesmo plano em que procede à desumanização de vozes soul. a batida conduz-se algures entre o balanço tribal e a síncope metalizada de um roska, sem se deter em qualquer campo, minando-o à força das expectativas. se o objectivo passava pela criação de um objecto alienígena, recluso no seu manancial ideológico para o despir de qualquer sentido referencial, o resultado é pleno. quem procure algum conforto e empatia terá muitas outras alternativas.

'nike' segue a mesma tendência para a estratificação de um modo (ainda) mais auto-consciente. e em sentido ascendente. progride do 8-bit até à house mais funky, com passagem pelos ecos do dubstep, de um modo tendencialmente pacifista. nunca impositiva, pauta-se por uma sobreposição cuidada de todos estes elementos com vista à imersão, repisando território familiar para lhe conferir uma identidade muito menos reconhecível. um paradoxo?

terça-feira, 7 de setembro de 2010

constelação vs. fosso

rentrée bem suculenta do bodyspace, com uma bonita montra da parte de todos aqueles que fazem dela uma casa de respeito. creio. da minha parte houve resenha para does it look like i'm here?. semi-desilusão vinda dos emeralds. comparação pálida com os recantos difusos de what happened e (espero) um necessário ponto de chegada para algo mais auto-sustentável.

bem mais entusiasmante tem sido a fruição lenta desse maravilhoso poço que é a colaboração da margarida garcia com a marcia bassett. beleza em suspensão assombrada por fantasmas do melhor drone possível. ou seja, com espaço. ganho à densidade sem recurso a estratégias lower case estéreis. mesmo que exigente. é aquele afogamento bom. se possível.


terça-feira, 31 de agosto de 2010

sublinhar

ainda na senda dos meus posts anteriores, constato que tanto o take me back da fantasia como o ep da teairra mari são mais duas belas adições ao cannon r'n'b deste ano. ou seja, fui mesmo exagerado.

o primeiro consegue ultrapassar o facto da fantasia ter uma voz genérica, com recurso a um cuidado particular na escrita das canções e o bom senso de não recorrer a acrobacias vocais inusitadas só para tentar escapar a esse mesmo aspecto incaracterístico. sincerely yours é uma aposta estranha num formato (quase sempre) remetido ao itunes sem qualquer promoção. poderia não ter justificação aparente com point of no return ainda fresquíssimo. e na obscuridade. mas dada a qualidade dos temas inclusos, dispersos por leaks, poderá até ser uma boa (embora subtil) chamada de atenção, agora que o regresso se afigura cada vez mais tangível. embora não preveja grande aparato em torno disso mesmo. ainda assim, a promoção nunca foi em demasia. nestes casos, entenda-se.


terça-feira, 17 de agosto de 2010

rasurar

talvez tenha sido algo exagerado quando afirmei que o r'n'b se encontra num estado lacónico. comparativamente a anos transactos, 2010 até tem sido um ano bastante aceitável para o género. love king é óptimo, e o disco da monica deveria ser ouvido por muito mais gente. com 'skydiver' da cassie a elevar-se acima de tudo aquilo o que ouvi este ano, para além do classicismo formal, mas eficaz, de 'holding you down (goin' in circles)' e de parte de what's the 901 da k michelle (quando não incorre numa ferocidade over-the-top demasiado estilizada), seria injusto referenciar o ano como mais um passo numa curva descendente que já vem de 2005.

^^uma vez que ainda não ouvi raymond vs. raymond do usher (gostei da sumptuosidade da 'little freak'. no entanto a nikki minaj reitera para si grande parte do fascínio), the archandroid ou a mixtape da teairra mari, tudo aponta para um salto qualitativo ligeiro, mas notório. embora nada bata how to be a lady, vol. 1.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

visibilidade

já que estamos neste campo, e sem querer entrar pela exploração nevrálgica de razões potenciais para a ausência, acho curioso que a teairra mari tenha mais um oportunidade depois de ter sido ofuscada pela rihanna na estratégia do jay z em 2005*. não deixa de ser verdade que têm leakado malhas com uma frequência assinalável, mas quem poderia esperar que em 2010 (e no estado algo lacónico em que a generalidade r'n'b se encontra) o eternamente adiado at this point fosse descartado para dar lugar a uma nova criação?** 'honey, i am past that point' disse ela em entrevista à rap-up tv.

apesar de se ter tornado uma presença subterrânea, a consistência assinalável na generalidade dos temas ('automatic', 'sponsors', 'coinz'), até torna a ideia de um álbum não tão descabida como inicialmente se poderia prever. para já point of no return é ressonante desse mesmo corte com um passado sonâmbulo. mas qual a razão para incorrer numa vulgaridade low-cost tão rafeira quando já se perdeu tanto tempo com meras frivolidades? exigia-se algum calculismo.

*sorte que falhou a nomes como a yummi bingham, megan rochell (tivesse visto a luz do dia e you, me and the radio seria dos melhores álbuns dos 00's) ou brooke valentine. e ainda será legítimo esperar por um novo álbum da cassie? : x

**na verdade, foi o aparecimento desses mesmos leaks a fundamentar todo o processo de regravação. faria algum sentido at this point ver mesmo a luz do dia?

reaparecer

compreendo que a postura cockney possa até soar forçada de tão descarada e que a profusão de 'YEAH!' e 'GET ME' possam levar ao enjoo, mas todo o backlash contra o bruza sempre me pareceu exacerbado. a intransigência perante o sentido de humor sempre foi uma constante no grime (mesmo que 'duppy' seja prova em contrário), ainda para mais encarnado numa persona tão confiante na sua arrogância, mas doin' me era uma mixtape bastante decente e 'no one but u' é a melhor canção r'n'g de sempre.

reconhecendo essa mesma realidade, tales of the underdog é um título mais do que adequado. sem ponta de auto-comiseração. a edição grátis parecia-me algo improvável, mas tendo em conta todo o historial rocambolesco do disco*, até constitui o meio mais viável de promoção de um objecto que parecia ter-se há muito extinguido. está longe de ser brilhante, mas tal não seria exigido numa altura em que o desnorte no género tem levado à glorificação de alguém como o tinnie tempah ou do crossover patético do tinchy pós-cloud 9. também não é a montra da aftershock que se poderia esperar (apesar de meia dúzia de produções do terror danjah) e (desta feita) as participações de gente como a mz bratt garantem algum valor acrescido, sem desvirtuar o papel central do bruza.

apesar do périplo, a datação temporal nem é um problema. será até uma das suas virtudes. 'not to nite' é como um recuerdo de 2001/2, quando o mcing sobre malhas ukg era ainda uma entidade anónima. a presença do sticky e do spyro na produção enfatizam esta mesma ideia, sem acessos de nostalgia 'back in the old days' (suspiro). 'smile' com a ella james é um momento de vulnerabilidade extremamente compensatório, que atira para fora de água grande parte das tentativas recentes de diálogo. nos antípodas está uma 'appreciation' que, não só descarta a subtileza oblíqua dos sintetizadores loungy que permeiam o álbum, como recorre à lauren mason. a presença do james vemon é para ignorar, também. tales of the underdog merece alguma atenção.

*descartado por uma multinacional, esteve com lançamento físico via aftershock em 2007 para desaparecer no éter.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

multiverso

tratando-se de uma pessoa pelo qual nutro o maior respeito e uma daquelas (poucas) mentes para quem a arte não se esgota numa prazenteirice (sic) desinteressada, para abraçar uma conceptualização livre de premissas estanques, já há muito que deveria ter feito referência ao filipe felizardo neste espaço. infelizmente, o blog dele tem estado inactivo, mas em jeito de compensação têm vindo a lume belíssimos podcasts semanais partilhados num mindset de comprimento de onda similar. ideal para o verão em toda a sua multiplicidade e espaço para a reflexão stream of consciousness. porque a arte (ainda) é partilha.

...e övöo espalhou também óptimas coordenadas ao longo de um trajecto volátil.

sábado, 17 de julho de 2010

estratagemas

poderão não ser legítimas e/ou saudáveis expectativas tão entusiásticas em torno da estreia da katy b mas, ainda assim, era forçoso que esperasse algo melhor do que 'katy on a mission' para single de avanço do álbum sobre o qual deposito as maiores esperanças para este ano. deixei algumas reflexões sobre tudo isso aqui.


quinta-feira, 1 de julho de 2010

2/4

a continuação lógica disto :

tensnake - coma cat
aeroplane - we can't fly
ariel pink's haunted graffiti - before today
redlight ft. roses gabor - stupid
t2 ft. h boogie - better off as friends (lil silva rmx)
ward 21 & tifa - high come down
oneohtrix point never - returnal
julian lynch - mare
new boyz ft. tyga - cricketz
husalah - you neva know
the dream - love king
james ferraro - feed me / on air / pixarni
akitsa - au crépuscule de l'espérance
cassie - skydiver
geeneus ft. katy b & ms. dynamite - lights on
rudimental ft. aadyiam & shantie - midnight affair
lil b - age of information
dj reflex - funky, vol. 5
lil silva - night skanker
va - ayobaness : the sound of south african house

quarta-feira, 30 de junho de 2010

eterno retorno

mais do que seria suposto ou previsível, os boards of canada têm sido uma companhia constante por aqui. talvez seja dos ares de verão em contacto com partículas do cérebro dedicadas a estados nostálgicos. ou o efeito pernicioso da apatia domingueira a escorrer pela semana e a resgatar memórias difusas. debalde tentaria explicar, mas 'bocuma' poderia tocar o resto da vida. hoje.

amanhã deixo alguns momentos destes últimos 3 meses.

terça-feira, 22 de junho de 2010

filão

se este espaço tem estado num regime de quase exclusividade para com a uk funky, é apenas reflexo de que quase todo o meu tempo de audição tem sido dedicado ao género. com excepções pontuais em bee mask, sandy bull, lil b e uma cidade abafada que ecoa no meu terraço .estes dois discos nem têm tomado grande parte do meu tempo, mas a sua relevância é indiscutível. a premência da escrita assenta nesse mesmo pressuposto. por muito pouca justiça que lhes faça.


segunda-feira, 14 de junho de 2010

partes

'cause honey at the end of the day
our love is slowly drifting away

is hurting and is painful to watch

so why can't we be...

^^em certa medida, é a ponte de sofrimento resignado que faz da remix da 'better off as friends' uma das melhores coisas que ouvi este ano. enquanto no conforto da original, este momento é apenas uma sequência lógica do refrão sem grande impacto, a paragem abrupta para a entrada daqueles sintetizadores agrestes na versão do lil silva acaba por se assumir como o vórtice estrutural de tudo o resto*. é como se invertesse a lógica de uma canção intuitivamente dançável, sabotando as intenções rítmicas frenéticas no momento em que se acumula toda a tensão, para a libertar subitamente num sopro (constatar a inevitabilidade). a voz refracta-se como se recriando o destruir dessa relação que não pode subsistir para além de uma amizade que se afigura impossível. o "la la la..." é o adeus. arrepiar caminho.

*hi-tech minucioso de labor apaixonado.

sábado, 12 de junho de 2010

achega

na verdade, 'stupid' poderá nem ser vista como uma malha uk funky per se. o que dada a abrangência do termo* nem significa grande coisa. a taxonomia não é para aqui chamada. as possibilidades inúmeras.

*um espectro capaz de abraçar de igual modo o frenesim da rmx do lil silva para 'better off as friends' e o não acontecimento misterioso da 'get out' (pegando em dois exemplos recentes). ou o caso do dennis ferrer (ainda gosto de pensar nisto como o ponto zero).


sexta-feira, 11 de junho de 2010

união

servisse 'stupid' de referência, e não seria descabido pensar que a porta de entrada da uk funky num espectro mais abrangente de reconhecimento passaria pela sua faceta mais agressiva. é algo surpreendente que esta nova encarnação do dj clipz sob o pseudónimo de redlight seja vista como a next big thing quando o lado supostamente mais apelativo (comercial? ugh) da cena tem falhado constantemente a exposição mediática. talvez resida nesse limbo entre tensão e hipnose o seu apelo, capaz de resposta de malta do dubstep, saudosistas da glória jungle/d'n'b (o legado do clipz) e o mulherio da house em igual medida.

sem enverdar pela tendência female mc de tiques dancehall de malhas como a 'eye too fast' ou 'pull it, wheel it', 'stupid' surge num contínuo com a 'i wish' ou a 'kiss you' por contrastar o instrumental com a candura da voz. aqui, a roses gabor aparece como elemento galvanizador, despida de maior impacto emocional, mas enfatizando o chamamento (em termos líricos, é disso que trata). a linha de baixo muito d'n'b em câmara lenta ecoa algumas produções uk garage do sticky, sem grandes apetrechos melódicos, insistindo em sons rasteiros de percussão e outros mais ou menos alienígenas. é um daquelas canções-fluxo, com a estrutura funcional da música de dança a impor-se na medida em que o refrão representa o momento de libertação (braços no ar, etc.). tudo isso resulta bem. muito bem, mesmo.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

o fim do torpor ?

ainda existe. a sério. pouco tempo / disposição para uma escrita que se quer contagiada pelas vossas vibrações amorosas e pelo conhecimento tácito de algo relevante.

hoje é dia de celebrar o regresso do nosso génio favorito.


quinta-feira, 22 de abril de 2010

latência I

para não deixar isto adormecer:

tento fazer dos forest swords os xx do far out.

troco algumas palavras sobre espaços mentais com o daniel lopatin. prevejo um sábado de nostalgia cósmica.

descubro pérolas do interior angolano. com esta malha de inácio chigando e rodrigo sekulo a reluzir um pouco mais do que as restantes. maravilhosa.

poderia ter gostado mais da noite passada na ZDB.

quarta-feira, 31 de março de 2010

1/4

mais para referência pessoal. ou uma montra sem grande aparato visual e cingida ao namedropping. premente ou não, o que de mais relevante se passou em 2010 até agora. entre canções e discos e sem qualquer ordem.

excepter - presidence
tempa t - chatting shit
forest swords - dagger paths
rangers - suburban tours
julian lynch - in new jersey
ginz & kool money kwame - wet wipe riddim
christina carter - coupled
ariel pink - round & round
illmana ft. tazmin - kiss you
sightings - city of straw
kyle hall - kaychunk / you know how i feel
rihanna - rude boy
bee mask - in the balm yard : the nth dream of the thermo-hygrometer
t.i. - i'm back
zinc ft. ms dynamite - wile out
monica - blackberry


segunda-feira, 29 de março de 2010

suspeitas

'blackberry' não reúne aquelas vicissitudes que o poderiam tornar num single viável, mas ao ser relegada para faixa bónus de still standing legitima que se espere do sexto álbum da monica algo de forçosamente bom. produção low key da missy com espaço para um uso de samples entre o criativo e absurdo (elogio), sem com isso impor ao instrumental uma maior contundência do que a necessária para a faceta habitualmente cândida da monica. o refrão passa incólume. a temática é, como seria de prever, sobre o efeito pernicioso das telecomunicações numa relação. neste caso, ciúmes. prevalece a doçura na melodia central, mas a cadência algo trôpega desta acaba por instalar uma certa amargura subliminar. faria todo o sentido, pelo menos.

quinta-feira, 25 de março de 2010

passeios

ouvir a 'dome city' ou 'deerfield village' no regresso de algo, num dia cinzento-primavera como o de hoje, é converter apatia em movimentos quase documentais cheios de nada e gente. suburban tours é feito de momentos assim.

noutras latitudes, os subúrbios também se desenham assim:

sons :

dead machines - the night terrors
wolf eyes - dead hills
the kinks - village green preservation society
sonic youth - becuz
evan parker - monoceros
iran - the moon boys
lamborghini crystal - alien microwave
pavement - slanted & enchanted
black flag - my war

letras :

american pastoral - philip roth
white noise - don delillo
my loose thread - dennis cooper

sexta-feira, 12 de março de 2010

caminho

pequeno texto meu na sempre aprazível página do a9))) no jornal de leiria. parte de algo maior que, tivesse eu computador, deixaria aqui na íntegra. no fundo, meia dúzia de palavras sobre apatia. nada mais.

'rude boy' é, sem dúvida, o melhor single da rihanna em muito tempo.


segunda-feira, 8 de março de 2010

mclane à presidência

rever pela enésima vez o die hard (mesmo antes dos oscars) levou-me a clarificar três ideias latentes :
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trata-se mesmo do it's a wonderful life do cinema de acção.
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criando o john mclane demarcou-se claramente do eixo niilista (i.e. super homem) alicerçado em filmes over-the-top como o cobra, comando ou da saga rambo (c/ excepção do primeiro)*, profetizando a queda do grande herói americano filmada em toda a sua plenitude nesse meta-filme que é o last action hero.
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por ter realizado também o predator, desculpam-se ao mctiernan coisas como o hunt for the red october ou medicine man. ou grande parte de uma carreira muito desequilibrada.
:
:
*enquanto reflexão (estereotipada) das dificuldades de adaptação ao american lifestyle dos veteranos da guerra do vietname, first blood vai muito para além do artificialismo estupidamente bélico e pirómano de todos os consequentes. e só tem uma morte.
:
:
em sentido contrário a qualquer imediatismo presidence dos excepter é como o white album que ny merece. debati-me com o épico aqui.

sexta-feira, 5 de março de 2010

areia negra

não sendo uma completa novidade, 'never be your woman' terá de ser louvada por se tratar da melhor coisa saída do grime desde 'trouble'. comparativamente, enquanto esta última assentava numa estrutura r'n'g algo óbvia mas auto-suficiente enquanto alicerce emocional para as interpretações (especialmente aquele refrão da shola ama), 'never be your woman' é uma bizarria instrumental que procura a negação de qualquer impacto emocional. com a batida resumida a umas congas subterrâneas, sustenta-se num balanço caribenho misterioso submerso em reverb, cujo baixo enfatiza enquanto abandono. "well i guess what they say is true / i could never be the right kind of girl for you / i could never be your woman". com a entrada daquele sintetizador ascendente, desvirtuado do background dançável, a acentuar todo o vazio latente. que parece querer persistir.

vai cinzento

bem melhor do que ...introducing. título tão em consonância com o dia de hoje. aqui.

quarta-feira, 3 de março de 2010

a casa do luís

melhor de sempre :

terça-feira, 2 de março de 2010

matthew broderick

foi também graças ao pedro rios que descobri estes games, que são o sonho molhado de qualquer gajo que acompanhe afincadamente as reposições do miami vice no fx, descubra psicadelismo na 'eyes without a face' e se delicie com as bso's dos clássicos do amiga. 'planet party' trata-se disso mesmo, quando a bola de espelhos exerce um fascínio espacial e se pensa no phil collins ao ouvir os surtos vocais. 'everything is working' é o steakout sensual com um groove g-funk a imaginar os imogen heap a ecoar em fundo.
:
as conclusões a tirar são :
:
a) that we can play será certamente um dos ep's mais queridos de 2010.
:
b) nada de mau poderá vir do cérebro do daniel lopatin (opn, infinity window et. al).
:
c) 'crockett's theme' é essencial.

alto astral

depois das belíssimas explorações free-folk, o meu querido pedro rios entrega-se às memórias granuladas de um verão em super 8. a conferir com um sorriso no blog de branches enquanto se espera a chegada do sol.

segunda-feira, 1 de março de 2010

deixar o indie

não será, de todo, surpreendente que acolyte dos delphic tenha sido alvo de rasgados elogios um pouco por toda a imprensa britânica. sabe-se de antemão das leis proteccionistas da crítica por este tipo de confecções dançáveis e subtilmente melancólicas made in uk, geralmente inúteis. ressalvando que a minha paciência para com algo que poderá ser apelidado de "indie-dance act" não será a maior, (ou mesmo não existente) a pertinência deste post está toda na capacidade do emergente julio bashmore transformar um desinteressante exercício pós-modernista de revisão estilosa a technique em algo infinitamente mais entusiasmante. paradoxalmente mais modesto e sem qualquer tique rock eufórico-estilizado (= inconsequente). nem se trata, tão pouco, de uma canção. aproveita-se da melodia central para a recontextualizar em sucessivos andamentos subtis na linha de this bliss do pantha du prince com acesso a uma linha de baixo 2-step discreta e uma tonalidade geral de pós-festividade apaziguadora. e é tudo aquilo que necessito.
:
o l-vis 1990 ainda consegue noutras latitudes resultados superiores ao original por força do wobble se rendilhar em síncopes mais provocantes (i.e. funky), mas deixa-se prender demasiado à estrutura, mantendo aquela voz insuportável de sofrimento fofo. vale o que vale.
:
^^a conclusão possível a tirar é que 'halcyon' existiu para ser remisturado. no éter a sua vida extingue-se. esperemos.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

cidades expectantes

dois dos lançamentos sobre os quais deposito mais expectativas foram hoje lançados pela muito recomendável olde english spelling bee (que caminha para se afirmar conjuntamente com a not not fun como a mais importante editora da actualidade).
:
sobre suburban tours já havia tangencialmente levantado algumas questões aqui. aquilo que o todd ledford escreve sobre o disco é exactamente aquilo que eu espero ouvir : "but despite the loneliness and melancholic themes there is a remarkable amount of color to his music. Like it's the sound of what he'd want to have playing on his headphones while riding a bike thru these neighbourhoods -- the sound necessary to make these places seem lively and fun." ou seja, tudo aquilo que de bom posso esperar de algo com o nome de suburban tours. memórias da bmx incluídas.
:
espero também que dagger paths se revele tão essencial como aquilo que miarches e especialmente 'glory gongs' fazem antever. tenho algumas reservas em relação ao david keenan quando diz "forest swords work as a hypnagogic update of classic uk underground modes, importing psychedelic hip-hop and r ‘n’ b production styles into the kind of eccentric art-pop settings of simon wickham-smith and richard youngs, two daughters, dome, the shadow ring et al." que me parece ser uma definição induzida (forçosamente) pelo amor professado pelo gajo dos forest swords em relação à dinâmica aalyiah/timbaland*. com alguma boa vontade este sentimento poderá até trespassar de algum modo nas batidas rarefeitas a simular groove e no uso dos samples de voz, mas prevalece a noção de espaço do dub sobre tudo isto. prefiro até pensar, sendo ele inglês, que tudo isto estará ligado de algum modo ao lado menos bovino do dubstep. tendo em conta esta mixtape para o gorilla vs. bear, tudo isto poderá fazer sentido. ou não, mas conjecturar faz parte da diversão.
:
*além de não restar paciência para esta tendência exacerbada do keenan em usar o termo hypnagogic para tudo aquilo remotamente associado ao conceito de memória. não que alguma vez tivesse havido, para ser sincero.

baixa rotação nocturna

the cable house do andrew chalk não é uma novidade, mas enquanto paira uma ameaça subliminar de temporal e os dias se desenham a cinzento versão 2010, será essencial a sua descoberta. paira no seu próprio vazio, feito de uma estaticidade latente, sintomática de abandono. profundamente submerso na solidão, trata-se do disco mais "triste" que ouvi desde, sei lá, o disintegration loops do william basinski*. lindíssimo tratado sobre contenção, gere os semi-silêncios de um modo subtilmente tenso, conferindo a cada nota de piano que se solta uma dimensão humildemente majestosa. como se a sua lógica interna fosse seguida de um modo que se parece deslocar de tudo aquilo que o precedeu, revestindo-se de uma incomensurável emotividade. invocando essa mesma ausência. em pequenos gestos.
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*que poderá, com as suas diferenças, ser até uma referência pertinente.
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escrita letárgica (ou não fosse domingo) de abstracção sensitiva. ou meramente über-imagética. deve ser do avançado da hora. com agradecimentos à joana. defo.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

fitas

um artigo sobre cassetes na pitchfork será sempre um artigo sobre cassetes na pitchfork. não sendo particularmente premente ou relevante, presta-se mesmo a especular sobre um suposto comeback, quando na verdade o meio sempre existiu. constata o óbvio e cai no erro de referenciar lançamentos mais marginais de bandas como oneida ou dirty projectors sem grande explicação para tal. enquanto peça meramente informativa, consegue, ainda assim cumprir o seu papel de modo minimamente digno. no fundo, é um espelho da própria pitchfork.
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quem se deixou (momentaneamente) do formato foi joe knight (rangers) que prepara o lançamento do seu primeiro álbum pela olde english spelling bee. deixei aqui algumas palavras a antevê-lo.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

(re)começar

num contínuo com o ano transacto, mas como se a respirar os primeiros ares de 2010. por ora, o cheiro destas chuvas insistentes e estas 2 primeiras belas malhas :

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zinc ft. ms. dynamite - wile out

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aquele início com a voz da ms. dynamite em ondas de suavidade enquanto canta “you don’t wanna play with dynamite", soa terrivelmente desajustado, principalmente depois do petardo de 'get low' com produção do geeneus. felizmente o tema redime-se rapidamente com a entrada daquele sintetizador em saltos ukg via 'show me love' a levarem a prestação da ms. dynamite para territórios menos delicados, com o patois a acentuar a cadência 4/4 insistente (destacado nos pratos) que instala o tema em territórios mais afastados da síncope e a acercarem-se das produções vincadamente house do geeneus. tal, não será surpreendente tendo em conta o facto do zinc colaborar habitualmente com este último ('emotions' é obrigatória), mesmo que se demarque de uma certa agressividade persistente em crack house. deixa também óptimas indicações para o álbum de estreia da katy b, com a produção a cargo dos dois produtores*, mesmo que não venha alterar nada ao desinteresse generalizado ao regresso da ms. dynamite. consonante, portanto.

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*como se tal fosse necessário depois de coisas como a clássica 'as i' ou mais recentemente a refix de 'goodlife'

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illmana ft. tazmin - kiss you

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'kiss you' é uma espécie de companion piece cândida (por oposição a confrontacional) de 'ready fi de war' com a stush (disponível na mix funky vol. 4 do dj reflex). mantendo a mesma ameaça subliminar deste último tema, prenhe de agressividade rítmica, para transportar o instrumental (cuja cadência é igual) para ambiências marcadamente mais misteriosas, numa transversalidade entre a entropia de 'i wish' de x5 dubs com a teresa e o lado mais soturno de 'tell me what it is' do dj ng. paradigma de um desespero dançável na uk funky de que gosto demasiado sem recorrer a grande raciocínio.



segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

garota de verão

a bethany é uma rapariga muito divertida que canta sobre garotos e sol em best coast e me respondeu a algumas perguntas aqui.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

eleições

se o díptico throne/self destruction apresentava um demarcar da obra-prima KA, entre o drone de sofá drogado e o rescaldo da dança em formas líquidas, respectivamente, toda a coerência interna pós-caitlin cook/calder martin espelhada nos interessantes sunbomber, alternation ou no gozo (por vezes) inconsequente de debt dept. mostrava o estúdio como um meio asséptico para as semi-canções dos excepter*. com mais de duas horas**, nunca presidence seria sinónimo de coerência. atirando-se a todas as suas tendências em planos distintos, é talvez essa a razão que faz dele o melhor álbum dos nova-iorquinos desde throne (o tempo revelará se não mesmo desde KA). dito isto, facilmente incorro no risco de hipérbole ao afirmar que muito dificilmente irei ouvir mais 10 discos em 2010 que o superem. brevemente irei escrever sobre ele. existe muita matéria que se dispersa. a ver se não desaparece.
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*obra outsider, black beach levou-os até à praia, mas estava mais próximo do naturalismo do jewelled antler do que da alienação urbana de outrora.
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**gravações entre 2003 e 2009.
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notas de qualidade : a suite 'teleportation' traz de novo o reverb do poço, enquanto 'presidence' é um solo do john fell ryan para sintetizador em igual medida acid-house e 'suicide'. sem deixar de invocar a kösmiche e tony conrad, simultaneamente. uma anomalia não distante de algo como "falsa música de dança" (que pode até nos melhores momentos ser uma descrição bastante sucinta dos excepter, curiosamente***). e sem um único beat.
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***epitomizado em 'interplay' ('your house' e 'back room')

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

a derrota do ruído?

o concerto de gary war na passada sexta-feira foi mais ou menos assim. o diogo silva falou em joy division, mas parece-me exacerbado, embora compreensível com alguma má vontade. o miguel fez um retrato lindíssimo da experiência jandek no maria matos, no dia seguinte.
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noutras latitudes, os últimos singles da shakira e do usher revelaram-se surpreendentemente incríveis*.
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*não tanto no caso de 'did it again' depois dessa maravilha que foi a 'she wolf'. o que me leva a pensar se não deveria ouvir o álbum.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

a vitória do ruído?

a minha tendência (algo recente) para levantar questões sem que me digne (pela incapacidade) a respondê-las de forma efectiva, tem levado a que os meus textos mais recentes no bodyspace se tornem demasiado extensos em torno de pequenos nadas. dissertações inconclusivas sobre a natureza de coisas tão simples como um disco agradável. horribles parade do gary war é o último exemplo disso.
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^^tantos semi-círculos em torno do noise levaram-me a reler mais atentamente o balanço da década feito pelo marc masters para a pitchfork. admiro-lhe a estrutura linear, devidamente fundamentada em premissas essencialmente geográficas (as insuspeitas rhode island e michigan à cabeça) e a referência fugaz a nomes como hive mind ou sick llama. embora óbvio, conseguiu ser declaradamente informativo sem ser demasiado austero em terrenos ainda por cartografar devidamente*. a referência inicial a animal collective era algo excusada, mas compreende-se enquanto catalisador temporal. incompreensível a opção de reduzir os skaters a uma nota de rodapé na inevitável referência à hypnagogic pop**.
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*props pelo bom senso, mesmo que numa escrita algo rígida.
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**que poderia ser apenas um capricho de fanboy. mas existem demasiados mundos a descobrir no universo desses dois drogados para passar incólume.