sexta-feira, 29 de outubro de 2010

cheques

Apparently (so sez dissensus) Funkystepz will be releasing "Fuller" b/w "Hurricane Riddim" on Hyperdub. Unbeatable combo IMO.

^^tim finney no ilm. concordo. para não deixar este post tão cheio de nada :

descoberta recente de um produtor um tanto ou quanto invisível. apesar de alguns momentos irrelevantes, existem algumas razões para lhe prestar alguma atenção ('safe', 'sugar rush' ou 'complicated'). o nome é péssimo, mas isso é apanágio no género (crazy couzins? ugh), e não uma razão viável para a desconfiança.


quarta-feira, 27 de outubro de 2010

montes

numa manobra que não lhe é totalmente inédita, o wiley tem vindo a disponibilizar gratuitamente (via twitter) 180 malhas que vinha a gravar compulsivamente. é óbvio que tal proficuidade reserva sempre muitos dissabores, mas tendo em conta o fluxo de actividade, pode-se até afirmar que o godfather of grime consegue alguns momentos bastante inspirados. depois das sequelas insignificantes de 'wearing my rolex', dos beefs com o trim, do desnorte em torno do "verdadeiro grime" e do ataque aos tops por uma via que esteve destinada ao confronto entre intransigência criativa e crossover bovino, recebem-se com relativa felicidade alguns temas que, sem serem brilhantes ('never be your woman' esteve perto), não ofendem como anteriormente.

da enxurrada, e abraçando apenas de modo tangencial a potencialmente penosa tarefa de separar o trigo do joio, é impossível não aceitar de bom grado algumas feras. 'will your name remain' é uma curiosa peça evocativa, algures entre a tendência sino e 'xtc', com a referência ao eskibeat a funcionar como suporte para esse mesmo acesso de nostalgia, como se dissesse "eu sempre aqui estive", sem reforçar demasiado uma identidade, já de si sobejamente reconhecida. a sequência r'n'g desse mesmo estado é atingida em 'oh la la' com igual aprumo estético, sem desvirtuar um savoir faire que se pretende sincero. depois de uma prestação notável em 'trouble', a shola ama volta a abrilhantar um tema onde a presença do mc é tão automática que chega a ser meramente acessória, sem estorvar. o template insistente que passa de primordial a subliminar com a chegada da cascata de sintetizadores, na tradição das melhores produções grime para candura feminina, deixa a impressão de ter sido coisa para ter levado apenas um par de horas a fazer. mas, quando o know how serve de modo tão fascinante os seus propósitos benignos, nada se lhe pode opor. 'paranoid' segue uma tendência similar em modo sonâmbulo.

se este back-to-basics (se assim se lhe pode chamar) não deixa de ser algo natural, porque revestido de algum valor simbólico (apesar da presença física da shola ama), a associação do wiley ao mj cole já é mais intrigante. mesmo com as piscadelas de olho ao legado do uk garage, não estava à espera de uma ligação directa a 2002 pelo cordão umbilical. o resultado acaba por nem soar ao revisionismo retro que se poderia supor, e apesar da tradição freestyle evocar os dias da rádio, a produção revive esse passado de um modo quase esquelético, reduzida a uma batida rarefeita e apontamentos sonoros rasteiros, um pouco na onda de algumas produções do wookie adaptadas a um contexto grime. eficácia genética?

amor

obviamente que a minha relação de amizade (além de partilha comunicacional/musical em osso) me tornam suspeito para falar sobre a obra do carlos nascimento. no entanto, alienar-me das virtudes de robert foster (pseudónimo sacado ao clássico beneath a steel sky que esconde o seu trabalho pós-ghoak) não faria qualquer sentido factual pela "mera" existência de fortes ligações afectivas. numa altura em que a ressurreição dos sintetizadores de calor analógico tem vindo a colher louvores nem sempre meritórios, a música de robert foster eleva-se para lá da mediania vigente destituída de pathos.

mesmo habitando num plano cartografado, comum a alguns dos nomes mais importantes do agora (stellar om source, oneothrix point never, etc.), explora o seu próprio campo referencial por via da transmutação simbólica das premissas fundadoras da música sintetizada. aglutinando memórias do vangelis de albedo 0.39, john carpenter, kösmiche, inflexões prog da escola rick wakeman ou da grandiloquência do jean michel jarre de deserted place a equinox, para as filtrar num contínuo cronológico tão devedor da pré-idm ambiental dos orb ou future sound of london, como dos estados alterados consequentes dos autechre circa tri repetae++ ou (invariavelmente) das vignettes dos boards of canada. com todo aquele sentido de risco inescapável numa realidade pós-endless summer.

todo este manancial é parcimoniosamente arquitectado em composições semi-improvisadas, minuciosas mas nunca austeras, de uma sensibilidade quase tangível, escapando ao exagero new age ou ao pastiche retórico sem forçar uma saída de recurso. persiste uma melancolia difusa, um sentimento de abandono para coordenadas dispersas. o vazio envolvente de blackmass, onde a dark star do carpenter se transforma numa possível realidade, igualmente intrigante, é caminho natural para a nostalgia futurista de '1985' e (principalmente) de '1970'. a constatação óbvia de que não existe qualquer embuste trendy numa música que só faz sentido assim. deslocada espacial/temporalmente, é especulativa na medida em que habita no cérebro para se dotar de uma significância dependente do conforto referencial do ouvinte. não incute imagem, precede-a.

tudo isto pode ser confirmado AQUI. ignore-se a leitura precedente, e tudo irá fazer sentido. mesmo.


terça-feira, 26 de outubro de 2010

recibos

"The first half of 2011 is already lining up to be really exciting. We've got releases from new artists to the label, Morgan Zarate and Funkystepz are among them, as well as a brace of new music from older artists."

^^mail de outubro da hyperdub.

depois destes dois lançamentos, a contratação de funkystepz para os quadros da hyperdub segue uma lógica bastante adequada para a exposição menos hermética de uma das equipas de produção mais características dentro da uk funky. são também os únicos a investir declaradamente numa toada tropical ('shake it', 'malibu', etc.) que não se restrinja a um one off tentativo (mesmo que possa garantir óptimos resultados, como 'magaluuf ' ou este clássico). a opção mais óbvia seria 'fuller' (como atesta a presença nesta mix do kode 9), pela sua partilha de valores com a identidade da editora, mas quem tem 'hurricane riddim' ou 'crash bandicoot', tem todo um manancial de opções igualmente viáveis.

tendo em conta que esta estreia na hyperdub possa constituir um retrato mais fidedigno temporalmente, as duas malhas inéditas incluídas na mais recente mix para a rinse.fm seriam a escolha mais natural. e fariam igualmente todo o sentido.

catatonia

poder-se-ia culpar a relação conturbada com o chris brown pela catarse exageradamente emo de rated r, mas atendendo às suas palavras, esta sanidade pode-se vir a revelar tão necessária quanto boçal (o que, ainda assim, nunca será tão pernicioso quanto 'russian roulette' ou 'run this town'). em antecipação branda a loud, 'only girl (in the world)' apresenta uma tendência para o egocentrismo celebratório que 'who's that chick' vem confirmar. produzida pelo, cada vez mais omnipresente david guetta, leva ainda mais longe a euforia eurodance do single de avanço para um resultado que, ainda mais do que descaracterizado, torna-se quase caricatural no modo forçoso como celebra o seu bem estar por uma via tão jovial.



quinta-feira, 21 de outubro de 2010

chance

ainda existe. fervilham em lume brando algumas ideias dispersas que pretendo deixar aqui, assim que possível. para breve, creio. em jeito de recompensa (para quem?) deixo aqui o link para más fuego da princesa. reggaeton a cair em cascata sobre tudo aquilo que interessa no género, como já não ouvia desde casa de leones, e apenas disponível para download gratuito. é aproveitar. o single homónimo é aquilo que o jorge manuel lopes tão sucintamente descreveu.

domingo, 3 de outubro de 2010

3/4

hype williams - untitled
teairra mari - sincerely yours ep
the fives ft. vanya taylor - it's what you do (hottest by far)
kingdom - that mystic ep
devine collective - people keep dancing
donaeo - i'm fly
gucci mane - the appeal : georgia's most wanted
breach - fatherless (doc daneeka rmx)
k michelle - what's the 901
fantasia - take me back
screama ft. farah - kiss me there/i can't
slk - hype hype (funkystepz rmx)
bee mask - canzoni dal laboratorio del silenzio cosmico
curren$y - pilot talk
eastwood - right there
ill blu - bits
hardhouse banton - freeness vol. 1
tifa - nah stop shine
ghetto - moonwalk thing
ignatz - mort aux vaches
prince rama - shadow temple

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

identidade

apesar dos clássicos 'sirens' e 'reign' (recentemente alvo de uma remix de dumplin) serem a sua faceta mais visível, seria erróneo categorizar o hardhouse banton como um criador de riddims tendencialmente másculos de características grime. oferecida sem qualquer tipo de aparato, a compilação freebies vol. 1 permite constatar que o espectro vai muito para além dessa faceta. na verdade, aquilo que sobressai na obra dele é uma apetência para a criação de uma dimensão bem mais etérea do que seria previsível. precisa numa construção rítmica textural enquanto suporte para uma tangibilidade rarefeita e delicada na sua tensão alienante. freebies vol. 1 não procura ser, de modo algum, marca de água para as características do produtor, nem tão pouco almeja ser uma mixtape per se. encare-se como uma tentativa incoerente de juntar algumas das inúmeras pontas soltas de um género ainda refém da rádio (nada contra). desequilibrada, cai inevitavelmente em terreno desnecessário. ainda assim é impossível não destacar três malhas em particular:

peça fulcral para a compreensão do seu universo, a remix da 'turn it around' de alena é um daqueles exemplos gloriosos da capacidade cirúrgica da uk funky de transformar algo desinteressante/inócuo/intragável em algo infinitamente mais interessante de seu pleno direito, por via da restituição das suas premissas bases (remixes de ill blu para a 'one more lie' e roll deep), ou desvirtuando o seu elemento unificador até ao abandono ('better off as friends', 'find your love', etc.). neste caso, toda a euforia late 90's eurodance do original desaparece no vazio, para dar lugar a um misterioso exercício de final de noite, de sonambulismo psicotrópico. a batida segue uma lógica "one step forward, two steps back" em sintonia tensa com a melodia descendente. é neste precipício que a voz paira enquanto último resquício de um humanismo que se fragmenta no infinito aquando do refrão. e é mesmo este resultado final que prevalece, quando a memória já tratou de eliminar 'turn it around', e todas as questões (técnicas, ideológicas, etc.) em torno da sua origem deixam de ter qualquer tipo de significado.

duas malhas, até agora, desconhecidas partem de estratégias idênticas para acentuar a delicadeza que 'turn it around' insinua obliquamente. 'chase the earth' é aquilo que esperava que os n-10tainment pudessem vir a fazer depois de 'i pray' (acabaram por seguir uma lógica new age sofrível*). almeja uma mesma dimensão incorpórea (não querendo repetir este termo) sem se desapegar do apelo dançável, para a revestir de uma maior candura. habita um limbo arriscado, com esse lado etéreo em voos rasantes sobre o papel de parede pseudo-metafísico, mas acaba por resultar de um modo que não seria previsível. o reverb habita um pouco por todo o lado sem impor uma densidade sabotadora, com a voz a assumir contornos claramente condutores. talvez seja a minha capacidade de abstracção do seu lado cheesy, mas até aquela guitarrinha tropical me parece uma boa ideia.

'next to me' pode ser vista como o meio termo entre estas duas. num comprimento de onda similar a algo como 'make your move' do seany b, é reflexo do minimalismo melódico do seu autor. a estrutura polirrítmica linear enquanto suporte para uma melodia central ,que se vai repercutindo em camadas, até chegar a um refrão que acentue toda a tensão latente, é uma daquelas fórmulas que aprovo sem grande problemas analíticos. acabando por ser tão funcional quanto intrigante sem querer forçosamente deslumbrar.

*'peruvian high' acabou por me soar bem melhor do que qualquer aproximação a um tribalismo-lounge (?)

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

vias

ainda no rescaldo da rentrée escrevi sobre a mais recente demonstração da night slugs daquilo que é plausível de ser dançado. ou interpretado. deixei também alguns apontamentos sobre o primeiro investimento visual de bom gosto no seio da uk funky. e uma hipótese tangível de crossover.

deixei também o preconceito de lado e decidi-me a ouvir a 'square one', finalmente. bem melhor do que poderia supor vindo de um projecto com o nome de mosca. inevitavelmente, projectava-me para os territórios lamacentos de caspa ou rusko. assumpções infundadas.

'square one' é um peça fragmentada. justaposição cautelosa que nunca evolui numa lógica estrita, antes fazendo da sua própria mutação a razão de ser. nuanceada de modo a não resvalar para um frenesim iconoclasta, mas suficientemente intrigante, deixa habitar o toasting reduzido ao essencial (a palavra), num mesmo plano em que procede à desumanização de vozes soul. a batida conduz-se algures entre o balanço tribal e a síncope metalizada de um roska, sem se deter em qualquer campo, minando-o à força das expectativas. se o objectivo passava pela criação de um objecto alienígena, recluso no seu manancial ideológico para o despir de qualquer sentido referencial, o resultado é pleno. quem procure algum conforto e empatia terá muitas outras alternativas.

'nike' segue a mesma tendência para a estratificação de um modo (ainda) mais auto-consciente. e em sentido ascendente. progride do 8-bit até à house mais funky, com passagem pelos ecos do dubstep, de um modo tendencialmente pacifista. nunca impositiva, pauta-se por uma sobreposição cuidada de todos estes elementos com vista à imersão, repisando território familiar para lhe conferir uma identidade muito menos reconhecível. um paradoxo?

terça-feira, 7 de setembro de 2010

constelação vs. fosso

rentrée bem suculenta do bodyspace, com uma bonita montra da parte de todos aqueles que fazem dela uma casa de respeito. creio. da minha parte houve resenha para does it look like i'm here?. semi-desilusão vinda dos emeralds. comparação pálida com os recantos difusos de what happened e (espero) um necessário ponto de chegada para algo mais auto-sustentável.

bem mais entusiasmante tem sido a fruição lenta desse maravilhoso poço que é a colaboração da margarida garcia com a marcia bassett. beleza em suspensão assombrada por fantasmas do melhor drone possível. ou seja, com espaço. ganho à densidade sem recurso a estratégias lower case estéreis. mesmo que exigente. é aquele afogamento bom. se possível.