depois de minutos perdidos a abordar de modo leviano aquilo que se convencionou chamar de chillwave com recurso a memory tapes, neon indian e washed out (apesar de ter gostado da 'belong'), a verdade é que os (poucos) ânimos ficaram tão refreados que nunca tive o mínimo de interesse em ouvir toro y moi. esta remistura de 'french' não vem mudar a situação, mas não deixa de ser um interessante exercício de transposição cinética da west coast para os centros londrinos. a(s) batida(s) convoca(m) o lado mais negro da ukg, com o tratamento de vozes em fundo a cimentar esta mesma ideia de modo igualmente ameaçador. mantendo a mesma estrutura, mas refutando o efeito do refrão para um fluxo que galvaniza uma certa paranóia subliminar. timing perfeito a cavalgar toda a atenção de que tem sido alvo os putos do OFWGKTA, nas vésperas da edição de goblin pela xl, e com underneath the pine a receber os esperados elogios. o que não será suficiente para que o ouça, a não ser que inconscientemente alguma canção do disco me agarre a atenção. o tempo é precioso, também.
quinta-feira, 3 de março de 2011
distância
depois de minutos perdidos a abordar de modo leviano aquilo que se convencionou chamar de chillwave com recurso a memory tapes, neon indian e washed out (apesar de ter gostado da 'belong'), a verdade é que os (poucos) ânimos ficaram tão refreados que nunca tive o mínimo de interesse em ouvir toro y moi. esta remistura de 'french' não vem mudar a situação, mas não deixa de ser um interessante exercício de transposição cinética da west coast para os centros londrinos. a(s) batida(s) convoca(m) o lado mais negro da ukg, com o tratamento de vozes em fundo a cimentar esta mesma ideia de modo igualmente ameaçador. mantendo a mesma estrutura, mas refutando o efeito do refrão para um fluxo que galvaniza uma certa paranóia subliminar. timing perfeito a cavalgar toda a atenção de que tem sido alvo os putos do OFWGKTA, nas vésperas da edição de goblin pela xl, e com underneath the pine a receber os esperados elogios. o que não será suficiente para que o ouça, a não ser que inconscientemente alguma canção do disco me agarre a atenção. o tempo é precioso, também.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
chegadas
como que a arrancar com 2011 com coisas que verdadeiramente interessam. até agora, são estas as primeiras 4 grandes malhas do ano :
wretch 32 - traktor (mike delinquent project rmx)
chasing voices - ex nihilo nihil fit
tyler, the creator - yonkers
lady chann - treble to your bass (marcus nasty remix)
:
duas resenhas em que abordo a necessária e lenta "profissionalização" da uk funky, por via de dois dos seus maiores nomes. constituirão com o devine collective (ainda não tive oportunidade de ouvir house girls - the album) os três nomes maiores hipóteses de alcançarem reconhecimento fora do espectro, depois da mediania generalizada e silêncio dos crazy cousinz e da intermitência de fuzzy logic. excluindo os nomes do roska e do lil silva desta equação por uma questão de conforto (i.e. transversalmente aceites). ainda assim, tudo isto poderá cair em saco roto. 'siegalizer' tinha tanto potencial de crossover (não no sentido mais comercial entenda-se*) e o que aconteceu ao apple?
ill blu - meltdown
funkystepz - fuller / hurricane riddim
*sobre isto, qualquer especulação parece ainda mais infundada. a tendência até parece ser um certo afastamento de uma estrutura mais estrita em direcção à canção, para um aceitamento generalizado da voz enquanto meio condutor para todo o potencial dançável ('midnight affair' ou 'right there'). e se, em 2010 coisas como 'it's what you do (hottest by far)' ou 'for u' não se conseguiram impor, de pouco adianta conjecturar sobre essa matéria.
wretch 32 - traktor (mike delinquent project rmx)
chasing voices - ex nihilo nihil fit
tyler, the creator - yonkers
lady chann - treble to your bass (marcus nasty remix)
^^por opção, abstenho-me de ouvir o original. só pode ser esta a versão definitiva de 'treble to your bass' (pun intended com o seu quê de parvo, mas funcional). com o nasty a crescer claramente enquanto produtor, por via da associação ao bassboy ('shitta' ou 'drip'), seria inevitável que começasse a ser requisitado para outras funções que não a de "dj oficial da uk funky". 'treble to your bass' só se revela na sua plenitude a partir do momento que os graves se impõem. aquele primeiro acorde de piano a instaurar uma aura de tensão que encontra paralelo galvanizador na linha de baixo que irrompe lá para meio. sem grandes apetrechos melódicos, o sintetizador que surge dos confins corrobora todo o confronto entre alienação e comunhão que tenho vindo a louvar por diversas vezes neste espaço. a própria voz da lady chann assume uma posição intermédia, enquanto mensageira para que a confluência enunciada na premissa de "treble to your bass" faça sentido factual.
:
duas resenhas em que abordo a necessária e lenta "profissionalização" da uk funky, por via de dois dos seus maiores nomes. constituirão com o devine collective (ainda não tive oportunidade de ouvir house girls - the album) os três nomes maiores hipóteses de alcançarem reconhecimento fora do espectro, depois da mediania generalizada e silêncio dos crazy cousinz e da intermitência de fuzzy logic. excluindo os nomes do roska e do lil silva desta equação por uma questão de conforto (i.e. transversalmente aceites). ainda assim, tudo isto poderá cair em saco roto. 'siegalizer' tinha tanto potencial de crossover (não no sentido mais comercial entenda-se*) e o que aconteceu ao apple?
ill blu - meltdown
funkystepz - fuller / hurricane riddim
*sobre isto, qualquer especulação parece ainda mais infundada. a tendência até parece ser um certo afastamento de uma estrutura mais estrita em direcção à canção, para um aceitamento generalizado da voz enquanto meio condutor para todo o potencial dançável ('midnight affair' ou 'right there'). e se, em 2010 coisas como 'it's what you do (hottest by far)' ou 'for u' não se conseguiram impor, de pouco adianta conjecturar sobre essa matéria.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
o tempo é eterno
texto meu que era para ter saído no bodyspace, mas que já tinha sido alvo de apreciação pelo rafael santos. my bad. para não se perder (e porque foi um dos melhores discos do ano passado), aqui fica :
Hot Toddy – Late Night Boogie
Smoke ´N´ Mirrors – 2010
Intro : Súmula perfeita da maturidade da nu-disco em disco imune a armadilhas sazonais.
O Verão não é eterno. A ironia habita em Endless Summer (dos Beach Boys, do Fennesz) enformada pela nostalgia de um Verão que subsiste enquanto resquício último de uma felicidade truncada no tempo. O pretenso revival da balearic beat ainda tentou apregoar que a festa na praia ao abrigo das palmeiras e encharcada a daiquiris seria infinita, mas apesar do legado que perdura em malhas como a 'Coma Cat' (qualquer festa em 2010 devia ter passado por aqui), é necessário reconhecer a sazonalidade de tudo isto. A natureza cíclica tratar-se-á de conferir a necessária perenidade de todas estas movimentações. Apanhada no caudal da deep-house, a tendência nu-disco lá vai dispondo coordenadas um pouco por toda a parte. Como se a toda festa se seguisse um rescaldo e por diante, perpetuando o momento. Um contínuo.
Geograficamente, Metro Area epitomizou a vida urbana para assegurar um estatuto clássico, enquanto os Studio trataram de assegurar uma descendência (nem sempre saudável) que do areal populado de fake tans em roupas de linho brancas, rapidamente se despe para o jacuzzi. Enquanto centenas de canções têm direito a revisões de gente tão ilustre como o Todd Terje, outras ficam-se por disco edits ensimesmados. Uma estrutura capaz de albergar todo o Mundo e que os Mungolian Jet Set tentaram num acesso de brilhantismo megalómano conter em We Gave It All Away, Now We`re Taking It Back e do qual o Lindström tem vindo a escapar em tangentes intergalácticas.
Com Late Night Boogie o nu-disco chega à sua fase outonal, sem acessos de melancolia reflexiva. O nome é sucinto nesse carácter de pós-euforia feliz, com a capa a transparecer um sentimento enevoado que permeia essas horas tardias/madrugadoras. Assume-se declaradamente uma narrativa onde todas as partes fazem sentido. Metade dos Crazy Penis (rebaptizados de Crazy P, e cuja estreia com A Nice Hot Bath With... era isso mesmo), Chris Todd não quis enganar ninguém quando assumiu para as suas investidas a solo o nome de uma bebida alcoólica servida quente. Depois de quebrar um hiato de três anos com a lindíssima homenagem à deep-house que foi 'I Need Love' em 2009, Todd regressa aos álbuns 10 anos depois da estreia com Super Magic e com a tinha-tudo-para-ser-clássica 'Mindtrip' pelo meio.
Englobando todas as partículas que fazem do género um processo de constante mutação sem com isso preterir qualquer coerência estética interna, Late Night Boogie não é uma obra de aspirações grandiloquentes como o já citado álbum dos Mungolian Jet Set. Antes, um indicador fidedigno da vitalidade do género enquanto cápsula permeável a influências de toda a música de dança sensual (nunca exaltada) que acaba por ser transversal a qualquer datação temporal. Não fosse Late Night Boogie tão bom, e poderia até incorrer-se no risco de utilizar termos tão sofríveis como “sofisticado” e “suave” (e à memória dispensável dos late 90's da G-Stone e da K7!). Que, ainda assim, não fizeram mal nenhum a Silent Movie de Quiet Village.
Apesar do ritmo nunca se tornar impositivo, não existe nada que leve Late Night Boogie para o terreno meloso do downtempo. A espuma dos sintetizadores de 'Magnetic' dá azo a uma polirritmia que não destoaria de Remain In The Light e sobre a qual sobrevoam vozes processadas das mais diversas formas : robotizadas, etéreas, pitch shifted, em reverse. Sem nunca perder o fio condutor que é o groove. O princípio mestre que aglutina as referências funk, house, disco e tudo mais que é passível de coabitar naturalmente no espectro abrangido pelo título do disco.
Mais próximas daquilo que se entende como uma canção 'Freekend' e 'Won't Let Go' contam com a voz de Danielle Moore para resultados distintos. A primeira encarna o boogie como entendido nos anos 80, recorrendo a baixos gordos (não gordurosos) e a estaladas melódicas de sintetizador e guitarra para uma prestação vocal prenhe de respirações. 'Won't Let Go' é uma peça mais subtil que alimentada pelo sequenciador do baixo se vai desenformando parcimoniosamente aos comandos da voz lânguida. Na senda da placidez de algo como esta revisão de 'Melankoli', sem incorrer numa imagética tão presente, optando por um poder de sugestão mais intrigante até ao seu final. Pelo meio, 'On the 1AM' parte de uma batida simples, que pode anunciar qualquer coisa, para ir dispondo camadas e mais camadas de guitarras e sintetizador para uma densidade que apela à submersão. O termo hazy serve para isto.
'Down To Love' conta com a participação de Jennifer Rhonwen naquele que constitui o momento mais classy do álbum. O rhodes muito jazzy que, de outro modo, seria de um enjoo inenarrável, assume todas as suas propriedades sensuais, numa construção linear que, sem qualquer facilitismo, deixa que a voz de Rhonwen assuma o protagonismo com confiança. Uma naturalidade de processos que é reflexo de um disco que perdendo algum fôlego na segunda metade se ouvido atentamente de uma assentada, por via dessa mesma coerência interna, nunca se limita ao reciclar auto-fágico de ideias, e deixa para o final a doçura de 'Late Night Boogie' em tons de Synchronicity dos Police. Como que a acenar a tudo aquilo que a precedeu. Ou a perspectivar um novo começo.
O Verão não é eterno. A ironia habita em Endless Summer (dos Beach Boys, do Fennesz) enformada pela nostalgia de um Verão que subsiste enquanto resquício último de uma felicidade truncada no tempo. O pretenso revival da balearic beat ainda tentou apregoar que a festa na praia ao abrigo das palmeiras e encharcada a daiquiris seria infinita, mas apesar do legado que perdura em malhas como a 'Coma Cat' (qualquer festa em 2010 devia ter passado por aqui), é necessário reconhecer a sazonalidade de tudo isto. A natureza cíclica tratar-se-á de conferir a necessária perenidade de todas estas movimentações. Apanhada no caudal da deep-house, a tendência nu-disco lá vai dispondo coordenadas um pouco por toda a parte. Como se a toda festa se seguisse um rescaldo e por diante, perpetuando o momento. Um contínuo.
Geograficamente, Metro Area epitomizou a vida urbana para assegurar um estatuto clássico, enquanto os Studio trataram de assegurar uma descendência (nem sempre saudável) que do areal populado de fake tans em roupas de linho brancas, rapidamente se despe para o jacuzzi. Enquanto centenas de canções têm direito a revisões de gente tão ilustre como o Todd Terje, outras ficam-se por disco edits ensimesmados. Uma estrutura capaz de albergar todo o Mundo e que os Mungolian Jet Set tentaram num acesso de brilhantismo megalómano conter em We Gave It All Away, Now We`re Taking It Back e do qual o Lindström tem vindo a escapar em tangentes intergalácticas.
Com Late Night Boogie o nu-disco chega à sua fase outonal, sem acessos de melancolia reflexiva. O nome é sucinto nesse carácter de pós-euforia feliz, com a capa a transparecer um sentimento enevoado que permeia essas horas tardias/madrugadoras. Assume-se declaradamente uma narrativa onde todas as partes fazem sentido. Metade dos Crazy Penis (rebaptizados de Crazy P, e cuja estreia com A Nice Hot Bath With... era isso mesmo), Chris Todd não quis enganar ninguém quando assumiu para as suas investidas a solo o nome de uma bebida alcoólica servida quente. Depois de quebrar um hiato de três anos com a lindíssima homenagem à deep-house que foi 'I Need Love' em 2009, Todd regressa aos álbuns 10 anos depois da estreia com Super Magic e com a tinha-tudo-para-ser-clássica 'Mindtrip' pelo meio.
Englobando todas as partículas que fazem do género um processo de constante mutação sem com isso preterir qualquer coerência estética interna, Late Night Boogie não é uma obra de aspirações grandiloquentes como o já citado álbum dos Mungolian Jet Set. Antes, um indicador fidedigno da vitalidade do género enquanto cápsula permeável a influências de toda a música de dança sensual (nunca exaltada) que acaba por ser transversal a qualquer datação temporal. Não fosse Late Night Boogie tão bom, e poderia até incorrer-se no risco de utilizar termos tão sofríveis como “sofisticado” e “suave” (e à memória dispensável dos late 90's da G-Stone e da K7!). Que, ainda assim, não fizeram mal nenhum a Silent Movie de Quiet Village.
Apesar do ritmo nunca se tornar impositivo, não existe nada que leve Late Night Boogie para o terreno meloso do downtempo. A espuma dos sintetizadores de 'Magnetic' dá azo a uma polirritmia que não destoaria de Remain In The Light e sobre a qual sobrevoam vozes processadas das mais diversas formas : robotizadas, etéreas, pitch shifted, em reverse. Sem nunca perder o fio condutor que é o groove. O princípio mestre que aglutina as referências funk, house, disco e tudo mais que é passível de coabitar naturalmente no espectro abrangido pelo título do disco.
Mais próximas daquilo que se entende como uma canção 'Freekend' e 'Won't Let Go' contam com a voz de Danielle Moore para resultados distintos. A primeira encarna o boogie como entendido nos anos 80, recorrendo a baixos gordos (não gordurosos) e a estaladas melódicas de sintetizador e guitarra para uma prestação vocal prenhe de respirações. 'Won't Let Go' é uma peça mais subtil que alimentada pelo sequenciador do baixo se vai desenformando parcimoniosamente aos comandos da voz lânguida. Na senda da placidez de algo como esta revisão de 'Melankoli', sem incorrer numa imagética tão presente, optando por um poder de sugestão mais intrigante até ao seu final. Pelo meio, 'On the 1AM' parte de uma batida simples, que pode anunciar qualquer coisa, para ir dispondo camadas e mais camadas de guitarras e sintetizador para uma densidade que apela à submersão. O termo hazy serve para isto.
'Down To Love' conta com a participação de Jennifer Rhonwen naquele que constitui o momento mais classy do álbum. O rhodes muito jazzy que, de outro modo, seria de um enjoo inenarrável, assume todas as suas propriedades sensuais, numa construção linear que, sem qualquer facilitismo, deixa que a voz de Rhonwen assuma o protagonismo com confiança. Uma naturalidade de processos que é reflexo de um disco que perdendo algum fôlego na segunda metade se ouvido atentamente de uma assentada, por via dessa mesma coerência interna, nunca se limita ao reciclar auto-fágico de ideias, e deixa para o final a doçura de 'Late Night Boogie' em tons de Synchronicity dos Police. Como que a acenar a tudo aquilo que a precedeu. Ou a perspectivar um novo começo.
para acabar com 2010
rescaldo possível e inconclusivo. ou os últimos fogachos de 2010 :
lista das 10 canções do ano para a redacção do bodyspace
alguns textos recentes :
kandi - kandi koated
diddy dirty money - last train to paris
nota para vicki leekx
nota para awaken
bill orcutt - a new way to pay old debts
^^sobre este último, pretendo deixar brevemente umas notas anexas que fugindo um pouco ao cerne do álbum, permitem-me extrapolar de um modo mais extensivo as noções de guitarra que procurei expor.
lista das 10 canções do ano para a redacção do bodyspace
alguns textos recentes :
kandi - kandi koated
diddy dirty money - last train to paris
nota para vicki leekx
nota para awaken
bill orcutt - a new way to pay old debts
^^sobre este último, pretendo deixar brevemente umas notas anexas que fugindo um pouco ao cerne do álbum, permitem-me extrapolar de um modo mais extensivo as noções de guitarra que procurei expor.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
quadro de honra #4
já eram para ter sido publicados faz tempo. entretanto a lista das minhas canções do ano do bodyspace já foi divulgada, mas aqui estão uns últimos (algo apressados) rabiscos sobre canções que deviam ocupar um lugar especial em algum lado :
ill blu - parachute
quando já estão mais do que expostas as tendências maximais dos ill blu no campo das remisturas pop, desvirtuando (para bom efeito) as prestações vocais para um campo onde se assemelham a meras sessões, 'parachute' eleva-se, nessa premissa, por via de um certo nervoso-miudinho subliminar que, de outro modo, a Cheryl Cole nunca poderia atingir. nem interessa invocar o original, quando esta é a versão que interessa, pouco preocupada em conceder protagonismo à voz banal (e terminantemente irritante) da Cheryl Cole para a imiscuir num arsenal sónico implacável, que ostenta todo o poder galvanizador dos sintetizadores para transformar a simplicidade do refrão ("baby if i got you, i don't need a parachute") num dos momentos mais memoráveis do ano transacto sem que se dê pelo rosto.
tyler, the creator - french
com tanta tendência para o onirismo e para a experimentalismo brute force, o hip hop mais aventureiro parece ter perdido tudo aquilo que fazia dele algo tão essencial quanto tendencialmente perigoso. ou seja, chegou-se a um ponto em que todo o risco é assepticamente dirigido para atingir um shock value que, enquanto statement, acaba por se revelar tão inofensivo quanto gratuitamente esperto. no colectivo odd future wolf gang will kill them all, tudo é exposto de um modo igualmente gratuito, mas é feito de acordo com um modus operandi tão displicente na sua sinceridade que, finalmente, a noção de perigo volta a ser palpável. talvez seja essa presença figurativa tão próxima da realidade a erigir uma singularidade fascinante (pense-se na sobre-exposição continua do lil b) de um miasma moralmente repulsivo. fruto do líder tyler, the creator, com participação do hodgy beats, 'french' está minada por uma imagética depravada ("i'm opening a church to sell coke and led zeppelin/ to fuck mary in her ass"), mas objectivamente dirigida com um propósito, nem sempre digno, mas de uma clareza intrigante. esta, passa por uma tensão latente que a produção corroba de modo fidedigno. o baixo agreste vai de encontro a sintetizadores estáticos e por todo o lado parece acercar-se uma desconfortável sensação de desconhecido. por aqui, tudo isto poderá bem ser o verdadeiro lifestyle destes putos da costa oeste.
jazmine sullivan - u get on my nerves'holding you down (goin' in circles)' não foi a melhor escolha para single de apresentação de love me back. a produção faustosa da missy a camuflar uma canção que, de outro modo, seria facilmente esquecida e (utilizando o termo) anda em círculos sem se decidir. com as capacidades vocais da jazmine a incorrerem em alguns excessos ocasionais ao longo de um óptimo disco (como que a reclamar o protagonismo), 'u get on my nerves' é virtuosa no modo como toda a arquitectura sónica parece ir de encontro à canção e não o contrário, na verdadeira acepção de um dueto. tematicamente, recorre ao deteriorar de uma relação sob as duas perspectivas, com o ne-yo a dar réplica masculina ao atrito latente, culminando num refrão onde se canta "u get on my damn nerves" em uníssono, como que a reconhecer a culpa de ambas as partes. todas aquelas pequenas irritações, tão desnecessárias quanto naturais, e que numa escalada de fricção levam às grandes mudanças. vicissitudes.
mario basanov - up
o oposto de qualquer malha em que enfoque esteja no efeito omfg / didn't see that coming, 'up' é exemplar no modo como a sua construção linear consegue dispensar qualquer apetrecho tecnicamente notável para se assumir de modo brilhante como um daqueles objectos paradigmáticos da estratificação dos seus elementos com vista à gestalt. poderia extrapolar mais sobre as virtudes que fazem dela a melhor malha de house que ouvi em 2010, mas o tim finney salienta-as em toda a sua plenitude : "The entire purpose of this music is not to wow you with craft but rather to evoke a kind of empty but aching nostalgia for a moment that you may not have lived or even be in a position to imagine, and I increasingly suspect that for tunes to attain this specific vibe they need to be somewhat timeless themselves. Not in the boring rock critic sense, but in the sense of dance music which carefully evades as far as is possible the kind of timeliness that is so much dance music's appeal". e isto é tudo aquilo que eu poderia dizer. mas em melhor.
ariel pink's haunted grafitti - round and round
já muito se escreveu sobre 'round and round' e inegável constatar o seu brilhantismo no modo tão natural como resvala para a liga de "canções maiores do que a vida" sem forçar o mínimo de grandiloquência e permanecendo numa esfera eminentemente cool que açambarca tudo sem que se dê por isso. ouvi-la pela primeira vez num carro a caminho da praia com sol fez todo o sentido, mas 'round and round' subsiste de modo grandioso em qualquer habitat.
outras escolhas possíveis :
donae'o - i'm fly
devine collective - people keep dancing
chrisette michelle - unsaid
husalah - you neva know
trey songz - doorbell
breach - fatherless (doc daneeka remix)
tifa - nah stop shine
wacka flocka flame - hard in da paint
ciara ft. the dream - speechless
fantasia - man of the house
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
interlúdio
retomo amanhã a escrita sobre as canções que rendem. as 10 já estão escolhidas e aparecerão lá para o final de janeiro (quando já ninguém estiver a pensar em listas. e cheira a 2011). entretanto, deixo aqui algumas notas em ponto cruz :
10 pérolas descobertas ao longo do ano passado :
imagination - night dubbing
grace jones - hurricane
phantom tollbooth - power toy
vizusa - s/t
adrian gurvitz - il assassino
john wiese - circle snare
george coleman - bongo joe
joseph spence - bahamian guitarist
shola ama - much love
peter green - in the skies
5 reedições/compilações :
doug snyder & bob thompson - daily dance
vulcan - meet your ghost
bob seger - nevermind the bullets, here's early bob seger
youssou n'dour - i bring what i love ost
dadawah - peace and love
3 discos aos quais devia ter prestado mais atenção :
surfer blood - astro coast
kevin drumm - necro acoustic
mv & ee with mick flower- i left my wallet in the trossachs
10 pérolas descobertas ao longo do ano passado :
imagination - night dubbing
grace jones - hurricane
phantom tollbooth - power toy
vizusa - s/t
adrian gurvitz - il assassino
john wiese - circle snare
george coleman - bongo joe
joseph spence - bahamian guitarist
shola ama - much love
peter green - in the skies
5 reedições/compilações :
doug snyder & bob thompson - daily dance
vulcan - meet your ghost
bob seger - nevermind the bullets, here's early bob seger
youssou n'dour - i bring what i love ost
dadawah - peace and love
3 discos aos quais devia ter prestado mais atenção :
surfer blood - astro coast
kevin drumm - necro acoustic
mv & ee with mick flower- i left my wallet in the trossachs
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
quadro de honra #4
esthero - og bitch (funkystepz remix)
2010 foi, sem dúvida, o ano em que a extrema proficuidade dos funkystepz começou a a conhecer um mínimo de reconhecimento fora do eixo rinse.fm / deja vu / dj reflexx a que o género tem estado largamente restringido, para se imiscuir gloriosamente em alguns sets mais transversais da hessle ou do kode 9 ('fuller' / 'hurricane riddim' com edição para breve na hyperdub). com as edições de deep roller e sounds of malibu a funcionarem como resumo da matéria / cartão de visita fidedigno de tudo isto, não deixa de ser curioso que o momento mais gratificante tenha sido uma remix surpreendentemente bonita. mesmo tendo em conta a diversidade de opções que o trio de produtores tem vindo a tomar. atirando para todo o lado, sem que prevaleça uma marca autoral, mas com um fascínio relativamente mais abrangente pelo lado mais tropical. "og bitch (funkystepz remix)" não tem precedentes. também se aproveita apenas tangencialmente de um original sofrível e irrelevante, até um ponto em que o termo remix se torna demasiado redutor. na linha de revisões mestras como 'turn it around' , 'better off as friends' ou 'find your love', limita-se ao reaproveitamento de uma linha vocal em torno do qual o instrumental se enrede, sem nunca assumir um protagonismo, mas procurando uma confluência geral em direcção a uma ambiência tão descontraída quanto emocionalmente ressonante. acto contínuo, prevalece aquele sentimento de viajar de táxi ao final da tarde depois de um dia parco em acontecimentos e onde tudo em redor assume uma proporção quase cinemática. uma redoma natural de um tema encerrado na sua própria estrutura, que descarta o funcionalismo dinâmico em prole do deslumbramento. o necessário.
julian lynch - in new jersey
^^ breve no bodyspace
kyla - don't play with my heart (roska remix)
não sei porque é que tendo em conta como 'daydreaming' foi tão acertado, a kyla não se assume como uma cantora uk funky de pleno direito (farah, princess nyah ou miss fire) para continuar a dar voz a instrumentais cuja principal virtude é servirem de matéria prima para remisturas. com 'do you mind' a servir de paradigma disso mesmo. originalmente, 'don't play with my heart' anda entre a 'telephone' da lady gaga e a expressividade uk electro do sequenciador, num resultado inócuo onde a voz da kyla se revela incapaz de trespassar a amargura da letra no meio de tanta opressão. é num contexto uk funky que "my heart don't play no games with you" acaba por revelar todo o seu impacto emocional por via de um processamento que, ao repudiar o lado humano acaba por compreender o vazio latente dessa afirmação de modo mais fiel. ressonância possível no encontro com a atmosfera misteriosa em fundo e a linha descendente a conferir a tudo um sentimento de ameaça latente. do mesmo modo que a melodia central da 'tell me', mas onde o isolamento se presta à contemplação. por oposição a algo palpável como 'kalemba (wegue, wegue)' (servindo-me de um exemplo facilmente reconhecível e completamente fora do espectro) que servia enquanto prelúdio para a agressividade festiva. o cerne está nesse momento, como se fosse um anti-refrão, na medida em que é a ruptura restante (no modo como quebra a atmosfera para dar espaço a uma percussão esquelética. 'midnight affair' serve-se de estrutura semelhante) que acaba por manter 'don't play with my heart' no campo da canção. nada de particularmente brilhante a um nível formal, mas cujos efeitos num set acabam por ser tão incríveis que apenas com uma gritante falta de talento seria possível um efeito nefasto.
d double e - street fighter riddim
como escapar aos clichés grime sem com isso forçar o crossover. 'street fighter riddim' pode ser encarado como a 'next hype' de 2010, não só por glorificar uma persona particular cuja violência quase caricatural tem aqui consonância instrumental, como perpetua as premissas fundadoras do género sem soar revisionista. celebração sónica de um clássico que terá sido parte integrante das tardes ociosas dos ghettos londrinos (E7), a produção do dj swerve estabelece uma ligação directa entre os primórdios do grime e o peso que os jogos de consola tiveram nessa identidade ("beats born of ringtones, video games and staticky pirate-radio sounds" disse o dizzee em 2003 ao observer), sem entrar pelo pastiche reverente ('1 up' é um exemplo recente mais ou menos bem sucedido). numa altura em que o género não consegue sair da indecisão em que se encontra, confuso entre referências ao passado glorioso (as revisões da 'pow', o tag team simbólico da 'game over' ou mesmo este wiley), piscadelas de olho inusitadas ao mainstream e uma experimentação que tarda em revelar premência, 'street fighter riddim' eleva-se para além de tudo o resto sem grande esforço. fazendo da simbiose entre a melodia infecciosa e o wobble palco perfeito para o carisma do mc a coisa mais entusiasmante de sempre. por momentos.
panda bear - tomboy
quando a ouvi pela primeira vez no lux instalou-se na minha cabeça uma comparação ao minimalismo rock dos spacemen 3. poderá fazer pouco sentido contextual, mas existe algo no modo como o riff se vai perpetuando naquela aquosidade que me leva ao modo como as canções do sonic boom resistiam nessa mesma circularidade. é um panda bear de meios mais "pobres" do que o de person pitch, onde a batida assume a função de metrónomo essencial. uma pulsação grandiosa com a guitarra em catadupa ao longo de quatro minutos, sem necessidades supérfluas nem pretensões épicas ocas, deixando a voz pairar alienante sobre tudo isso sem devanear sobremaneira. não era necessário. está tudo naquele riff. seria bom recorrer mais vezes a esta palavra quando tomboy vir a luz do dia.
julian lynch - in new jersey
^^ breve no bodyspace
kyla - don't play with my heart (roska remix)
não sei porque é que tendo em conta como 'daydreaming' foi tão acertado, a kyla não se assume como uma cantora uk funky de pleno direito (farah, princess nyah ou miss fire) para continuar a dar voz a instrumentais cuja principal virtude é servirem de matéria prima para remisturas. com 'do you mind' a servir de paradigma disso mesmo. originalmente, 'don't play with my heart' anda entre a 'telephone' da lady gaga e a expressividade uk electro do sequenciador, num resultado inócuo onde a voz da kyla se revela incapaz de trespassar a amargura da letra no meio de tanta opressão. é num contexto uk funky que "my heart don't play no games with you" acaba por revelar todo o seu impacto emocional por via de um processamento que, ao repudiar o lado humano acaba por compreender o vazio latente dessa afirmação de modo mais fiel. ressonância possível no encontro com a atmosfera misteriosa em fundo e a linha descendente a conferir a tudo um sentimento de ameaça latente. do mesmo modo que a melodia central da 'tell me', mas onde o isolamento se presta à contemplação. por oposição a algo palpável como 'kalemba (wegue, wegue)' (servindo-me de um exemplo facilmente reconhecível e completamente fora do espectro) que servia enquanto prelúdio para a agressividade festiva. o cerne está nesse momento, como se fosse um anti-refrão, na medida em que é a ruptura restante (no modo como quebra a atmosfera para dar espaço a uma percussão esquelética. 'midnight affair' serve-se de estrutura semelhante) que acaba por manter 'don't play with my heart' no campo da canção. nada de particularmente brilhante a um nível formal, mas cujos efeitos num set acabam por ser tão incríveis que apenas com uma gritante falta de talento seria possível um efeito nefasto.
d double e - street fighter riddim
como escapar aos clichés grime sem com isso forçar o crossover. 'street fighter riddim' pode ser encarado como a 'next hype' de 2010, não só por glorificar uma persona particular cuja violência quase caricatural tem aqui consonância instrumental, como perpetua as premissas fundadoras do género sem soar revisionista. celebração sónica de um clássico que terá sido parte integrante das tardes ociosas dos ghettos londrinos (E7), a produção do dj swerve estabelece uma ligação directa entre os primórdios do grime e o peso que os jogos de consola tiveram nessa identidade ("beats born of ringtones, video games and staticky pirate-radio sounds" disse o dizzee em 2003 ao observer), sem entrar pelo pastiche reverente ('1 up' é um exemplo recente mais ou menos bem sucedido). numa altura em que o género não consegue sair da indecisão em que se encontra, confuso entre referências ao passado glorioso (as revisões da 'pow', o tag team simbólico da 'game over' ou mesmo este wiley), piscadelas de olho inusitadas ao mainstream e uma experimentação que tarda em revelar premência, 'street fighter riddim' eleva-se para além de tudo o resto sem grande esforço. fazendo da simbiose entre a melodia infecciosa e o wobble palco perfeito para o carisma do mc a coisa mais entusiasmante de sempre. por momentos.
panda bear - tomboy
quando a ouvi pela primeira vez no lux instalou-se na minha cabeça uma comparação ao minimalismo rock dos spacemen 3. poderá fazer pouco sentido contextual, mas existe algo no modo como o riff se vai perpetuando naquela aquosidade que me leva ao modo como as canções do sonic boom resistiam nessa mesma circularidade. é um panda bear de meios mais "pobres" do que o de person pitch, onde a batida assume a função de metrónomo essencial. uma pulsação grandiosa com a guitarra em catadupa ao longo de quatro minutos, sem necessidades supérfluas nem pretensões épicas ocas, deixando a voz pairar alienante sobre tudo isso sem devanear sobremaneira. não era necessário. está tudo naquele riff. seria bom recorrer mais vezes a esta palavra quando tomboy vir a luz do dia.
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
quadro de honra #3
por motivos de copyright, prefiro deixar links para o youtube em alguns dos casos. em havendo interesse, podem sempre pedir-me os mp3's de alguma das malhas. still, google is your friend :
shanell ft. mika means & jovi rockwell - la la la / teairra mari ft. mavado - coins
ainda não me decidi sobre qual destas duas versões gosto mais. o instrumental recupera aquele tom ameaçador que tem vindo a rarear no dancehall pós-choradeira (e refém do auto-tune) de um modo que não permite refrear os ânimos de modo brando. tem os dentes cerrados de tal maneira, que apenas uma voz feminina lhe poderia conceder o espaço necessário para não sucumbir à auto-fagia. o que poderia ter sido o caso de rated r, não estivesse tão dependente da catarse. e da maturidade forçada que isso acarreta?
a versão da shatell (à qual nunca prestei grande atenção, apesar de alguns momentos de valor em shut up n listen) prende-se mais na sua aura jamaicana, com o la la la subliminar a aparecer de um modo mais insistente no subconsciente para se converter no próprio (proto?) refrão. é um fluxo, onde as prestações mcing não ofendem sem serem completamente relevantes e acaba por desembocar sempre em "i'm gonna make you love me like that". a ameaça toma forma lírica. e apesar de imperar um certo conservadorismo acabo por a aceitar de bom grado enquanto statement hipnótico de uma malha indecisa quanto a revelar-se uma canção de pleno direito.
'coins' é uma anomalia que espelha o próprio perfil discreto da teairra mari. numa altura em que parece que at that point nunca irá ver a luz do dia, ficou confinada ao leak rasteiro ('automatic' com a nicki minaj também teria merecido melhor sorte). compreensível, não só pelas razões que já anteriormente tinha mencionado (embora pudesse ter feito parte de sincerely yours), mas também por ser difícil encontrar-lhe grande potencial comercial. desta feita, são as buzinas a enfatizar toda a tensão de um objecto que acaba por habitar o crossover entre o dancehall e o r'n'b de um modo que acaba por soar bastante natural. e que deveria ter mais oportunidades. com o mavado a oferecer um contraponto masculino bem vindo, a teairra incute toda uma coolness ao tema sem que isso implique um ambiente mais rarefeito. antes um fio condutor digno para uma canção reveladora das suas capacidades camaleónicas no espaço de três minutos e meio.
florrie - left too late
sem se desviar de uma fórmula que ajudou a criar, 'left too late' recorre ao manancial rico de opções estéticas da casa xenomania para uma solução tão eficaz quanto deslumbrante. dance-pop sem grandes segredos, na senda de mini-viva ou girls aloud (nos momentos menos exuberantes), onde o labor minucioso prestado à arquitectura sónica da canção não desvirtua uma vulnerabilidade palpável. processual, na medida em que encadeia os momentos em crescendo, com recurso a uma ponte que desemboca naquele tipo de refrões larger-than-life que facilmente se vêm a revelar tão exagerados quanto inócuos, mas igualmente sensitiva por nunca pôr em causa o sentimento geral da canção em detrimento de uma construção mais maniqueísta.
soundgirl - i'm the fool
isto é tudo aquilo que a santogold nunca poderá vir a ser e uma das razões (por estar nos antípodas) pelas quais embirro solenemente com a intransigência indie. ou então com aquele discurso muito pós-moderno que invoca a pop e o r'n'b sem um conhecimento de causa. talvez por se mostrar tão distante desse sectarismo, i'm the fool' consegue soar tão fundamental. e sem deixar de ser igualmente espertinha. nada mais me apraz a dizer. está tudo aqui : "this ain't glee / i'm back on the wire / if it was twilight / i'd be a vampire".
pinch - croydon house
nunca nutri grande admiração pelo pinch. underwater dancheall era uma premissa entusiasmante que veio a revelar uma militância dubstep demasiado presente, e acabava por cair no campo da über-seriedade sabotadora. 'croydon house' não se afasta dessa mesma austeridade, mas consegue subsistir nesses mesmos propósitos sem recorrer a uma agenda específica que dependa de tiques urbanos ensimesmados e, em última análise, cansativos. se o reverb inicial, muito echospace, demasiado reason, chega a assustar, rapidamente passa a um plano secundário para dar lugar ao ritmo. é este que faz de 'croydon house' a melhor coisa do pinch desde 'qawwali'. elemento central, dispõe-se em várias camadas que se enredam no acerto harmónico do sub-grave (que acaba por ter o seu protagonismo no meta-crescendo dos últimos dois minutos) sem nunca tomarem a dianteira. um kick 4/4 enfatizado pelos shakers e congas que parece desacelerar com a entrada daquelas palmas tão em voga no grime circa 2004, para um efeito tão óbvio quanto intrigante. o reverb mantém-se, nas profundezas, mas já há muito que foi esquecido na pan-generalidade de um tema que recupera o sentimento de isolamento do melhor loefah sem ser condescendente para com os seus ensinamentos. é aquele cinzentismo que não se alimenta somente da sua tensão lacónica, para meter o corpo a mexer de múltiplas formas. um one of a kind que duvido que se repita proximamente.
rangers - dome city
confesso : a escolha mais inusitada de suburban tours. 'dome city' está longe de ser uma canção ou mesmo um instrumental de pleno direito. assemelha-se mais a um interlúdio, não fosse aparecer quase no final do álbum. mas, apesar de fazer mais sentido perpetuar 'deerfield village' ou mesmo 'out past curfew' (versão nocturna/ameaçadora de uma comprimento de onda empático), 'dome city' é uma miniatura instrumental que acaba por cristalizar todo o sentimento de abandono que prevalece em suburban tours em formas mais ou menos prazenteiras. (partindo para um paralelismo não tão preciso, mas recorrente e eficaz) é um pouco como 'bocuma' consegue ser tão ou mais reveladora do universo dos boards of canada do que os temas per se. 'dome city' é, factualmente, uma redoma. o riff encerrado naquelas duas notas de guitarra (e aquele break circular a fazer todo o sentido) tanto pode ser o olhar dos subúrbios para a cidade na sua intangibilidade, como o oposto. um eterno-retorno, permitindo a extrapolação cinética. não é música de viagem, pois o escape é mental, é música de regresso. como a everyday life vigente.
shanell ft. mika means & jovi rockwell - la la la / teairra mari ft. mavado - coins
ainda não me decidi sobre qual destas duas versões gosto mais. o instrumental recupera aquele tom ameaçador que tem vindo a rarear no dancehall pós-choradeira (e refém do auto-tune) de um modo que não permite refrear os ânimos de modo brando. tem os dentes cerrados de tal maneira, que apenas uma voz feminina lhe poderia conceder o espaço necessário para não sucumbir à auto-fagia. o que poderia ter sido o caso de rated r, não estivesse tão dependente da catarse. e da maturidade forçada que isso acarreta?
a versão da shatell (à qual nunca prestei grande atenção, apesar de alguns momentos de valor em shut up n listen) prende-se mais na sua aura jamaicana, com o la la la subliminar a aparecer de um modo mais insistente no subconsciente para se converter no próprio (proto?) refrão. é um fluxo, onde as prestações mcing não ofendem sem serem completamente relevantes e acaba por desembocar sempre em "i'm gonna make you love me like that". a ameaça toma forma lírica. e apesar de imperar um certo conservadorismo acabo por a aceitar de bom grado enquanto statement hipnótico de uma malha indecisa quanto a revelar-se uma canção de pleno direito.
'coins' é uma anomalia que espelha o próprio perfil discreto da teairra mari. numa altura em que parece que at that point nunca irá ver a luz do dia, ficou confinada ao leak rasteiro ('automatic' com a nicki minaj também teria merecido melhor sorte). compreensível, não só pelas razões que já anteriormente tinha mencionado (embora pudesse ter feito parte de sincerely yours), mas também por ser difícil encontrar-lhe grande potencial comercial. desta feita, são as buzinas a enfatizar toda a tensão de um objecto que acaba por habitar o crossover entre o dancehall e o r'n'b de um modo que acaba por soar bastante natural. e que deveria ter mais oportunidades. com o mavado a oferecer um contraponto masculino bem vindo, a teairra incute toda uma coolness ao tema sem que isso implique um ambiente mais rarefeito. antes um fio condutor digno para uma canção reveladora das suas capacidades camaleónicas no espaço de três minutos e meio.
florrie - left too late
sem se desviar de uma fórmula que ajudou a criar, 'left too late' recorre ao manancial rico de opções estéticas da casa xenomania para uma solução tão eficaz quanto deslumbrante. dance-pop sem grandes segredos, na senda de mini-viva ou girls aloud (nos momentos menos exuberantes), onde o labor minucioso prestado à arquitectura sónica da canção não desvirtua uma vulnerabilidade palpável. processual, na medida em que encadeia os momentos em crescendo, com recurso a uma ponte que desemboca naquele tipo de refrões larger-than-life que facilmente se vêm a revelar tão exagerados quanto inócuos, mas igualmente sensitiva por nunca pôr em causa o sentimento geral da canção em detrimento de uma construção mais maniqueísta.
soundgirl - i'm the fool
isto é tudo aquilo que a santogold nunca poderá vir a ser e uma das razões (por estar nos antípodas) pelas quais embirro solenemente com a intransigência indie. ou então com aquele discurso muito pós-moderno que invoca a pop e o r'n'b sem um conhecimento de causa. talvez por se mostrar tão distante desse sectarismo, i'm the fool' consegue soar tão fundamental. e sem deixar de ser igualmente espertinha. nada mais me apraz a dizer. está tudo aqui : "this ain't glee / i'm back on the wire / if it was twilight / i'd be a vampire".
pinch - croydon house
nunca nutri grande admiração pelo pinch. underwater dancheall era uma premissa entusiasmante que veio a revelar uma militância dubstep demasiado presente, e acabava por cair no campo da über-seriedade sabotadora. 'croydon house' não se afasta dessa mesma austeridade, mas consegue subsistir nesses mesmos propósitos sem recorrer a uma agenda específica que dependa de tiques urbanos ensimesmados e, em última análise, cansativos. se o reverb inicial, muito echospace, demasiado reason, chega a assustar, rapidamente passa a um plano secundário para dar lugar ao ritmo. é este que faz de 'croydon house' a melhor coisa do pinch desde 'qawwali'. elemento central, dispõe-se em várias camadas que se enredam no acerto harmónico do sub-grave (que acaba por ter o seu protagonismo no meta-crescendo dos últimos dois minutos) sem nunca tomarem a dianteira. um kick 4/4 enfatizado pelos shakers e congas que parece desacelerar com a entrada daquelas palmas tão em voga no grime circa 2004, para um efeito tão óbvio quanto intrigante. o reverb mantém-se, nas profundezas, mas já há muito que foi esquecido na pan-generalidade de um tema que recupera o sentimento de isolamento do melhor loefah sem ser condescendente para com os seus ensinamentos. é aquele cinzentismo que não se alimenta somente da sua tensão lacónica, para meter o corpo a mexer de múltiplas formas. um one of a kind que duvido que se repita proximamente.
rangers - dome city
confesso : a escolha mais inusitada de suburban tours. 'dome city' está longe de ser uma canção ou mesmo um instrumental de pleno direito. assemelha-se mais a um interlúdio, não fosse aparecer quase no final do álbum. mas, apesar de fazer mais sentido perpetuar 'deerfield village' ou mesmo 'out past curfew' (versão nocturna/ameaçadora de uma comprimento de onda empático), 'dome city' é uma miniatura instrumental que acaba por cristalizar todo o sentimento de abandono que prevalece em suburban tours em formas mais ou menos prazenteiras. (partindo para um paralelismo não tão preciso, mas recorrente e eficaz) é um pouco como 'bocuma' consegue ser tão ou mais reveladora do universo dos boards of canada do que os temas per se. 'dome city' é, factualmente, uma redoma. o riff encerrado naquelas duas notas de guitarra (e aquele break circular a fazer todo o sentido) tanto pode ser o olhar dos subúrbios para a cidade na sua intangibilidade, como o oposto. um eterno-retorno, permitindo a extrapolação cinética. não é música de viagem, pois o escape é mental, é música de regresso. como a everyday life vigente.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
quadro de honra #2
mais. alguns transcritos das 'canções de verão' do bodyspace. a recordar.
kingdom ft. shyvone - mind reader (todd edwards mix)
kingdom ft. shyvone - mind reader (todd edwards mix)
eventualmente, a orientação para um ambiente mais soturno em that mystic acabou por se revelar bem menos perniciosa do que seria expectável, escapando com subtileza às armadilhas post-dubstep e deixando 'fogs' ecoar para a posteridade, mas 'mind reader' continua a elevar-se, quase um ano depois, sobre tudo aquilo que esse ep revelou. no entanto, e apesar de serem indiscutíveis as suas propriedades para a dança aos solavancos, a original sempre me pareceu demasiado impenetrável. um frenesim auto-referencial que se passeava por entre coordenadas jungle/2-step/bassline, com aquele acervo dos sintetizadores trancey (uk circa 94, não os de goa) a gerar um entusiasmo distractivo. por essa mesma razão, sempre a preteri em relação ao classicismo da remix do todd edwards, que, sem necessidade de se revelar a cada momento, consegue sem grandes acrobacias atingir uma elegância sublime de modo quase casual. não deixa de ser curioso que o próprio todd edwards fosse uma referência para a 'mind reader' transposto para um contexto onde a hiper-informação é norma. as técnicas de sampling vocal (cut-up) para efeito hipnótico são disso paradigma. logo, não deixa também de ser natural que seja ele a compreender melhor aquilo que 'mind reader' tinha para oferecer, sem nunca almejar o espanto. antes, a eficiência.
princesa - más fuego
terá sido mais pela alusão inflamável que o jorge manuel lopes terá escrito isto. o que não sendo, de todo, mentira, acaba por ser algo redutor (embora preciso) no que diz respeito a dois projectos distintos no modo como se precipitam para os mesmos objectivos. estes passam, obviamente, pela galvanização da pista (a referência ao fogo é, por todas as suas leituras, o meio mais óbvio no reggaeton). 'gasolina' (ainda hoje o maior êxito do género. e 'impacto' tinha tudo para dar certo) era sexualmente explícita, acabando por militar sub-repticiamente no lado mais acessível do género por via de coros femininos que distraíam da toada ameaçadora, enquanto se cantava em uníssono. 'más fuego' fundamenta-se nessa mesma ameaça constantemente. linhagem quase directa com os riddims do dancehall circa 2005 (dos drive-by shootings) que nunca procura humanizar esse processo. antes criar o distanciamento necessário para que o território da princesa esteja firmemente demarcado. é disso que 'más fuego' trata. de um modo que nenhum outro mitra (venha ele de que género for) conseguiu de modo tão vicioso.
rudimental ft. aadiyam & shantie - midnight affair
constitui, sem grande dúvida, aquele momento na uk funky que melhor evoca o ambiente promíscuo tão propício a noites ébrias. como se depreende facilmente, 'midnight affair' é marcadamente nocturno. é também sobre toda a tensão que o flirt pré-foda acarreta. elevada a níveis de extrema sensualidade por via de um sintetizador dorsal que, enredado em torno dos polirritmos rasteiros, consegue ser uma de elegância tão discreta quanto impositiva. contrariamente à tendência one night stand mais cândida de um clássico como a 'do you mind', 'midnight affair' rejeita qualquer tipo de empatia emocional. é foda nascida pela necessidade de quem não tem nada mais interessante para fazer. a misteriosa melodia da parte central é o caminho necessário até à cama, com a cidade em volta como espectador ausente. uma certa alienação tão em consonância com o hedonismo narcótico. ainda assim, existe vida fora dessas quatro paredes, e 'midnight affair' não deixa de soar estranhamente vouyerística na sua apatia enevoada. o que a torna perfeita para o drive by citadino em câmara lenta.
monica - blackberry
^^ aqui
tensnake - coma cat
sem que se deixe desvanecer aquele aroma a creme hidratante e fake tan de solário da balearic beat nascida em ibiza circa 1982, a reapropriação desse imaginário tem vindo a conhecer caminhos bem mais diversificados do que a mera dança suada da classe média/alta. o celebrado yearbook 1 dos studio poderá ter sido a faceta mais visível das baleares, numa altura em que se falava já de um ibiza revival independente das sofríveis compilações café del mar. eventualmente, toda essa proto-tendência se veio a dissipar, com passagem por pérolas como as remisturas dos aeroplane ou as bizarrias maximais dos mungolian jet set a assegurarem uma descendência discreta. com atributos humildes, 'coma cat' de tensnake agarra a dança pelos cornos (ou pelas ancas). consegue a estabilidade necessária num limbo entre uma saudável seriedade e o apelo cheesy capaz de arrastar, sem grande esforço, tanto o mulherio mais lascivo como o público da smalltown supersound. rejeitando o carácter arty muito pós-moderno, em prol de uma estrutura formal 4/4 tão insinuante quanto alienígena no seu hedonismo. tão simples quanto o facto de ser apenas uma linha de baixo absolutamente infecciosa que carrega todo o tema, para reluzir de modo mais estival que tudo o resto com a entrada do xilofone sintetizado mui caribe. deveria ter sido malha obrigatória em qualquer festa, sem que o “bom gosto” (hipsters de merda. eh) tenha de ser uma imposição. ou seja, a verdadeira silly season.
princesa - más fuego
terá sido mais pela alusão inflamável que o jorge manuel lopes terá escrito isto. o que não sendo, de todo, mentira, acaba por ser algo redutor (embora preciso) no que diz respeito a dois projectos distintos no modo como se precipitam para os mesmos objectivos. estes passam, obviamente, pela galvanização da pista (a referência ao fogo é, por todas as suas leituras, o meio mais óbvio no reggaeton). 'gasolina' (ainda hoje o maior êxito do género. e 'impacto' tinha tudo para dar certo) era sexualmente explícita, acabando por militar sub-repticiamente no lado mais acessível do género por via de coros femininos que distraíam da toada ameaçadora, enquanto se cantava em uníssono. 'más fuego' fundamenta-se nessa mesma ameaça constantemente. linhagem quase directa com os riddims do dancehall circa 2005 (dos drive-by shootings) que nunca procura humanizar esse processo. antes criar o distanciamento necessário para que o território da princesa esteja firmemente demarcado. é disso que 'más fuego' trata. de um modo que nenhum outro mitra (venha ele de que género for) conseguiu de modo tão vicioso.
rudimental ft. aadiyam & shantie - midnight affair
constitui, sem grande dúvida, aquele momento na uk funky que melhor evoca o ambiente promíscuo tão propício a noites ébrias. como se depreende facilmente, 'midnight affair' é marcadamente nocturno. é também sobre toda a tensão que o flirt pré-foda acarreta. elevada a níveis de extrema sensualidade por via de um sintetizador dorsal que, enredado em torno dos polirritmos rasteiros, consegue ser uma de elegância tão discreta quanto impositiva. contrariamente à tendência one night stand mais cândida de um clássico como a 'do you mind', 'midnight affair' rejeita qualquer tipo de empatia emocional. é foda nascida pela necessidade de quem não tem nada mais interessante para fazer. a misteriosa melodia da parte central é o caminho necessário até à cama, com a cidade em volta como espectador ausente. uma certa alienação tão em consonância com o hedonismo narcótico. ainda assim, existe vida fora dessas quatro paredes, e 'midnight affair' não deixa de soar estranhamente vouyerística na sua apatia enevoada. o que a torna perfeita para o drive by citadino em câmara lenta.
monica - blackberry
^^ aqui
tensnake - coma cat
sem que se deixe desvanecer aquele aroma a creme hidratante e fake tan de solário da balearic beat nascida em ibiza circa 1982, a reapropriação desse imaginário tem vindo a conhecer caminhos bem mais diversificados do que a mera dança suada da classe média/alta. o celebrado yearbook 1 dos studio poderá ter sido a faceta mais visível das baleares, numa altura em que se falava já de um ibiza revival independente das sofríveis compilações café del mar. eventualmente, toda essa proto-tendência se veio a dissipar, com passagem por pérolas como as remisturas dos aeroplane ou as bizarrias maximais dos mungolian jet set a assegurarem uma descendência discreta. com atributos humildes, 'coma cat' de tensnake agarra a dança pelos cornos (ou pelas ancas). consegue a estabilidade necessária num limbo entre uma saudável seriedade e o apelo cheesy capaz de arrastar, sem grande esforço, tanto o mulherio mais lascivo como o público da smalltown supersound. rejeitando o carácter arty muito pós-moderno, em prol de uma estrutura formal 4/4 tão insinuante quanto alienígena no seu hedonismo. tão simples quanto o facto de ser apenas uma linha de baixo absolutamente infecciosa que carrega todo o tema, para reluzir de modo mais estival que tudo o resto com a entrada do xilofone sintetizado mui caribe. deveria ter sido malha obrigatória em qualquer festa, sem que o “bom gosto” (hipsters de merda. eh) tenha de ser uma imposição. ou seja, a verdadeira silly season.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
quadro de honra #1
tal como o fiz o ano passado, vou deixando aqui malhas que não irão aparecer na minha lista de 10 canções do ano para o bodyspace (sairá lá para o início de janeiro), mas cuja relevância me leva a dedicar-lhes algumas palavras. dado que já tinha falado de algumas delas, e não querendo repetir ideias, deixo link para aquilo que rabisquei na altura (pressupondo que mantenho a opinião, obviamente). pretendo deixá-las em blocos de cinco (sem ordem) a seu ritmo. isto é, conforme o tempo e a paciência permitam.
live - lion's den
não seria, de todo, descabido pensar na alusão bíblica ao "covil dos leões" do livro de daniel. 'lion's den' tem também o poder de calar todos os detractores que acusam a uk funky de ser um género mercantilista para dança pré-foda alimentada a martini e vodka preta (i.e. gajas lascivas meets parolos sofisticados). 'lion's den' é um tema barricado e de rosto fechado, que zomba do fist pumping ao mesmo tempo que consegue soar igualmente avassalador. enquanto aquelas cordas anunciam todo o potencial apocalíptico do tema, a batida entra sem grandes concessões num registo tão inflamável quanto insinuante (na medida em que se permite a um manusear de ancas do mesmo modo que ameaça "partir tudo"), como sustento limite para que uma pianola paire de modo estranhamente gracioso vinda de nenhures. é como se a tensão circular de 'inflation' fosse tudo aquilo que restasse dela, seguindo a lógica de um tema que acaba por encerrar tudo aquilo que é aceitável numa pista de dança amplificado ao ponto de ruptura pré-bovino. isto, com um mc no topo (seguindo uma tendência dancehall tão explosiva, na linha da 'buss it') é banger por definição. sem que tenha essa necessidade.
the fives ft. vanya taylor - it's what you do (hottest by far)
^^ via bodyspace
redlight ft. roses gabor - stupid
^^ aqui
beach house - walk in the park
uma vez que saltei daquela fragilidade faux-estranha do primeiro álbum para teen dream, desconfiei que 'norway' pudesse ser aceitável por uma grandiloquência anómala. entretanto, ainda não sei se devotion já caminhava para esta direcção, mas acabei por aceitar os excessos vocais e as propriedades faustosas de teen dream sem grandes problemas de consciência. dessas primeiras audições, 'walk in the park' foi a única malha que ecoou de algum modo e ainda hoje se mantém como o momento que recordo com algum carinho. é aquele lado de passeio domingueiro que também pode ser vivido de modo igualmente sonolento à frente da tv (10 things i hate about you, all the truth about cats and dogs, por aí...) e que fez com que 'fade into you' (apesar de hoje não a conseguir ouvir) fizesse sentido há uns anos atrás. sem ser particularmente nostálgica, consegue ser, ainda assim, reveladora de um estado de espírito romântico que se desdenha quando visto de um ponto de vista racional, mas cujo sentido habita mesmo nessa capacidade de incutir à apatia um certo lado sonhador ficcionado. foda-se, o disco chama-se teen dream.
guilty simpson - cali hills
mais do que um álbum do guilty simpson, oj simpson é um tag team entre este e o madlib, cujo título se revela enganador nessa medida. sofre dos problemas de um álbum de produtor (depois de donuts, valerá mesmo a pena?) enquanto despacha o rapper numa dúzia de prestações. sendo que este sucumbe frequentemente perante a sua própria petulância, descaracterizado pelos recursos estilísticos do hip hop mais violento, oj simpson não só não disfarçou essas debilidades como foi incapaz de lhe conferir uma voz. apesar da existência de alguns momentos interessantes, 'cali hills' é a peça relevante de um puzzle abjecto. e o único momento de verdadeira simbiose. curiosamente, afasta o guilty simpson do ghetto, numa sentida homenagem ao j dilla, onde reflecte sobre a sua ascensão ao panteão de génio sem encetar pelo desgosto comiserativo de uma vivência cruel, pejado de referências thug. neste caso, o flow sonâmbulo adequa-se a um instrumental sem grandes malabarismos, onde o sampling (denso) serve os propósitos dessa mesma prestação. talvez tenha sido o fantasma do génio de detroit a presidir a tudo isto. talvez.
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